O Hospedeiro

Ameaça química

Um monstro de formas difíceis de descrever surge num importante rio de Seul. Sem fazer cerimônia, devora uma porção de indivíduos que passam um dia agradável no parque, ao lado da água. Mas foco está em uma família, cuja maioria dos membros vive num trailer que serve como barraca para vender alimentos. A garota mais nova desse grupo é capturada pela fera, e o resgate passa a ser o único pensamento.

O Hospedeiro pode ser somente um filme de monstro se o espectador quiser ver dessa forma. Há cenas grotescas, drama, tensão e até uma desconfortável linha de humor. Contudo, a abordagem que não está na superfície salta aos olhos. Ela tem um viés crítico e é facilmente perceptível.

O verdadeiro destruidor de vidas é mais de um. O governo sul-coreano, em parceira com o norte-americano, produz um desnecessário caos para reafirmar seu poder. Os falantes de língua inglesa dominam mais. É uma analogia à guerra no Iraque, quando o presidente Bush superestimou uma ameaça, exagerou na ofensiva e sacrificou muitas vidas inocentes. A vitória, no final, é falsa. As multinacionais também têm culpa: é uma delas que despeja produtos químicos no esgoto, contaminando o rio e produzindo criando o monstro por mutação.

A família acompanhada é fragmentada, tem um pé no fracasso e um lar apertado. Gang-Du (Kang-ho) é um adulto loiro que vive dormindo no trabalho e é pouco esperto. Não se sabe como, mas tem uma filha, que ama incondicionalmente. O pai dele entende sua condição e também é seu patrão. Há ainda dois irmãos: um rapaz com diploma universitário, que não consegue se empregar, e uma arqueira do time olímpico, que falhou na conquista do posto mais alto do pódio. A busca pela filha de Gang-Du será uma oportunidade de redenção a essas figuras.

A narrativa consegue se dividir em várias partes e dificilmente perde o charme. Há até certa compreensão e compaixão pelo monstro, tão vítima quanto os outros. Seu ciclo alimentar é complicado – uma hora ele come alguém e, em outra, deixa a presa viva num buraco. É habilidoso e esperto: os complexos movimentos debaixo da ponte ou a dissimulação de um cochilo ilustram-no bem.

O diretor Bong Joon-Ho faz um filme desconfortável, mas não descarta o entretenimento. Situa os personagens numa cidade rodeada pelo dilúvio e desconfiança. O monstro encontrou uma casa; os sul-coreanos perderam-na. É a lei do mais forte.

(Gwoemul, , 2006) Dirigido por Bong Joon-Ho. Com: Song Kang-ho, Byeon Hie-bong, Park Hae-il.

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