Cinzas do passado
Uma atriz francesa e um arquiteto japonês se conhecem em Hiroshima. O tempo é curto e eles rapidamente vão para a cama. A percepção da brevidade e natureza do encontro será sentida logo mais. A vida deles, do passado ao presente, se condicionou muito às circunstâncias do tempo, ligadas a eventos que mobilizaram milhares de pessoas.
A bomba atômica caiu há alguns anos. A cidade reconstruiu-se rapidamente, mas mantém a memória do passado. Os minutos iniciais são longos, exibindo as imagens pós-explosão. Mas elas se confundem com as do filme que a francesa está fazendo no lugar. O que é verdade ou encenação? A sensação é única.
A situação de Hiroshima reflete-se nos personagens, que foram destruídos pela guerra, mas conseguiram juntar os cacos. Especialmente a moça, que teve um amante alemão na adolescência, morto no fim do conflito. Ela, que ficou louca temporariamente, questiona o valor de sua juventude e a experiência dessa fase na cidade de Nevers, às margens do Rio Loire. Desnuda-se ao contar a história ao amante, na mesa de um bar. Tenta encontrar relação com o amor passageiro atual. Pensa na despedida anterior, tentando facilitar a separação.
Alain Resnais constrói belas imagens, como as do centro de Hiroshima, mas também dá sentido a elas. A noite teima em continuar, embora a mulher sinalize que o sol irá nascer em pouco tempo. Após o desabafo da francesa, o arquiteto perambula pelas ruas como um fantasma. Só ele expressa, em palavras, o desejo de continuarem a se amar.
O filme mistura gêneros sem se perder. É drama, romance e também documentário. Usa muito flashback e narração em off. Narrativamente, quer confundir, com a atriz falando do amor alemão como se fosse do japonês, em segunda pessoa, mas a técnica logo é percebida. O passado invade o presente.
Independente do final, há uma cena situada num estabelecimento chamado Casablanca, referenciando o filme de 1942. Assim, o complicado casal sempre terá Hiroshima pra se lembrar. Mesmo que para isso seja necessário, antes, esquecer.
(Hiroshima mon amour,
, 1959) Dirigido por Alain Resnais. Com: Emmanuelle Riva, Eiji Okada. ![]()
