Abusando de favores
Num casamento, a traição pode-se dar antes do sexo ou primeiro beijo. O casado Richard (Cooper) reencontra Nikki (Washington), uma amiga de infância, que dá em cima dele sutilmente, nas diversas oportunidades em que se encontram. O sujeito evita contar à esposa sobre a novidade.
O título com spoiler não é o maior problema de Acho que Amo Minha Mulher, terceiro trabalho de Chris Rock na direção de cinema. Ele tenta abordar assuntos como o casamento, nas obrigações e desgastes, e o desejo de buscar algo novo, mas fica no meio do caminho.
Richard obtém uma amizade que faz alguém se importar com ele, mas o que prevalece é o jogo de sedução. A atriz Kerry Washington, pra piorar, não consegue fugir dessa linha. Sua personagem não a acompanha, e começa a ficar muito chata. Visitando diariamente o trabalho do protagonista para pedir irrelevantes favores, só o rapaz não nota que é hora de dispensá-la. Só o faz tardiamente, mas há nova injeção de ânimo e ele repete o processo, desta vez, por palavras. Como se precisasse.
Do outro lado, há a esposa. Brenda (Torres) poderia ser vista como uma mulher exausta das tarefas diárias (profissionais e domésticas). O problema do casal não deveria, mas se concentra na falta de sexo. Incidentes como a compra de uma calcinha enorme ou os cochilos repentinos, que tentam ser engraçados, acabam por caracterizar a mulher como egoísta. A narrativa não dá chance para ela se explicar. Sem isso, o espectador tem que aturar cenas do Viagra e a conciliação em forma de musical.
Chris Rock é muito inconstante nas funções que se propõe a fazer, na frente e atrás das câmeras. No início, exibe letreiros que expõem situações já percebidas em cena. Como roteirista, insere muitas de suas habituais críticas sobre as diferenças raciais entre classes. Só que Richard é um yuppie que troca de Ipod com a amiga e compra boas roupas, sem precisar, na hora do almoço. Sua exposição, então, soa esnobe.
Mesmo se não desenvolvesse tão mal seus personagens, Acho que Amo Minha Mulher pecaria pelos motivos rasos que faz Richard tomar sua última decisão. A família pode ser importante, mas se o ambiente está insustentável, a reflexão precisa ser séria.
Mas Richard é apenas uma figura covarde, que não sabe dizer não ou expor a verdade. Na ação que poderia mudar sua vida, a imagem de uma gravata amarrada na testa o salva. Um noivado cai do céu, assim como o desejo sexual da esposa. Muito conveniente para um filme de noventa minutos, que ser mais curto.
(I Think I Love My Wife,
, 2007) Dirigido por Chris Rock. Com: Chris Rock, Kerry Washington, Gina Torres, Steve Buscemi. 
