Strings

stringsSem teto

Um rei se mata, deixando o legado ao filho, que é enganado pelo tio, sendo levado a buscar vingança contra a facção rival por acreditar que o pai havia sido morto por ela. A fantasia medieval Strings parece ser de fácil absorção, mas a narrativa desmistifica certas figuras, e a criatividade no formato ajuda a torná-la poética e deslumbrante.

Os personagens são marionetes. Os fios que os controlam têm fundamental importância. Se o da cabeça é partido, a vida se vai junto. Outras partes do corpo, se abatidas, são facilmente substituídas pelas de escravos. Desenha-se uma relação entre opressor e oprimido. Não à toa, o herdeiro tem a pele dourada, embora a camuflagem dela, para a guerra, ajude a criar outra identidade (e personalidade). A necessidade é a posse de um membro amarrado por uma linha que vem de alguma parte do céu. Pensando nisso, a cena do parto é de uma emoção ímpar: enquanto que entre os humanos o sentido é o corte de um cordão, entre os bonecos é o de ligar vários a um indivíduo.

De acordo com uma personagem feminina, todos estão conectados. Onde termina o fio de um começa o de outro. Alguns possuem afinidades maiores entre si. Embora o nascimento de um romance na metade do longa seja artificial, é interessante notar a sugestão dos fios entrelaçados no ar, representando o coito. Anteriormente, duas crianças se enrolavam ao praticar traquinagens, como se a física proibisse o contato. Bobagem. O medo pelo ato pode até representar certo moralismo. Quando dois seres se entregam ao outro, o racionalismo é deixado de lado, assumindo-se todos os riscos.

Os bonecos ignoram a existência dos controladores, que são vistos apenas no começo. Poderiam acreditar na existência de um ou mais deuses. Perceber que não agem por vontade própria e que, talvez, o destino já esteja traçado. Seria desanimador. Essa alienação faz com que lidem com os problemas terrenos. Os aéreos ficam na filosofia da interligação. É o suficiente para movimentar a história.

O diretor Anders Rønnow Klarlund desenvolve linguagem ao universo criado. Na falta de feições das figuras, aproveita-se dos movimentos de pálpebras, enquadramentos e iluminação. A boca estática poderia ser um obstáculo, mas a diferenciação entre monólogo e voice over não é tão necessária. Com o fio sendo o elemento mais importante, servindo de sugestão às ações, nada mais adequado que vários deles sejam substitutos das sombras para indicar a presença de um personagem sem mostrá-lo, de fato. A caracterização ainda fornece um bônus: os bonecos não precisam de equipamentos para subir uma montanha.

A ambiguidade de alguns personagens enriquece o drama. A começar pelo rei suicida, com passado condenável, mas nobre nos últimos minutos de vida. O segundo vilão, uma espécie de Frankenstein, continua sendo vilão, mas os incidentes que o levaram até aquela situação o tiram um pouco das profundezas. Os outros seguem um caminho mais ou menos previsível. A participação do chefe tribal prestes a morrer, que fornece um spoiler nada impressionante, é bastante dispensável.

O que Strings pior desenvolve é a série de diálogos. Muitos trocadilhos, como “a vida por um fio”, são espalhados sem a menor vergonha. Serviria de título para este texto, inclusive. Felizmente, há mais bons do que maus momentos. A derradeira cena deixa de contemplar o protagonista para pregar uma mensagem reconfortante dentro de um áspero evento. Uma escolha bem-sucedida.

(Strings,    , 2004) Dirigido por Anders Rønnow Klarlund.

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