Um Limite Entre Nós

um-limite-entre-nosO quintal como palco principal

A relação familiar dos Maxson é diversificada. Família afro-americana nos anos 1950, é marcada por relativo respeito entre adultos e tirania entre pai e filhos. Troy (Washington), o homem que sustenta a casa, vive como lixeiro. Deseja ascender a motorista do caminhão de lixo, mas os negros não são permitidos nessa função. Tentará falar com o sindicato, mas está desesperançoso. Já tomou muitas rasteiras na vida por causa da cor. A falta de novas perspectivas o tornou um sujeito amargo. Espera toda a sexta-feira após o expediente, quando o ordenado sai, para se embriagar com o colega Jim Bono (Henderson).

No quintal de casa, conta histórias que contém alguma quantidade de lorota. A esposa Rose (Davis) é uma das ouvintes, enquanto executa as tarefas domésticas. De repente, outras pessoas surgem, e o patriarca começa a resmungar. Primeiro, o filho mais velho que vive de música, que visita apenas para pedir dinheiro emprestado. Depois, o filho adolescente que quer jogar futebol no colégio, mas enfrenta a rejeição de Troy, que o quer trabalhando. Há ainda o irmão, com a cognição prejudicada depois de participar da guerra, vagando pelas ruas vendendo vegetais e se colocando como empregado de São Pedro, nos portões do céu.

Troy é delineado inicialmente como um animado contador de histórias, mas logo se revela rígido: herança da vida pobre e injusta, que ainda vigora. Por mais que existam justificativas, a simpatia pelo personagem diminui, até ser revertida. Percebe-se que ele teve uma relação horrível com o pai; ela se repete, em alguma intensidade, na geração seguinte, mas o velho não tem paciência para tratar do assunto. Usa como desculpa a “falta de tempo”, sendo ela mais uma mentira que o levará ao fundo do poço.

Cercas de madeira precisam ser instaladas ao redor do quintal. Mais que o isolamento físico, há as metáforas; o filme não se abstém de expor didaticamente algumas delas, o que poderia facilmente ser deduzido. Há uma aposta de, caso elas sejam colocadas, o amigo Bono comprará uma geladeira à esposa. Uma forma de incentivar a realização de pendências, mas também levanta a ideia que os personagens estão distantes de muitos bens de consumo. Em outra cena, o filho Cory pede uma televisão, é negado, mas entra em um jogo: se conseguir 100 dólares, o pai inteira a outra metade, e o aparelho é obtido. Essa questão é mais delicada, já que o jovem é totalmente não possui um tostão.

Baseado na peça teatral Fences, Um Limite Entre Nós não possui a naturalidade de uma obra cinematográfica. Os cenários são econômicos – raríssimas vezes a região da casa é deixada de lado – e os cortes e enquadramentos, pouco imaginativos. Os personagens saem de cena com pouca naturalidade, como se precisassem se esconder atrás do palco para o outro brilhar. Viola Davis é quem se faz mais notar nesse quesito: quando a encenação é no quintal, dá alguma contribuição, mas logo entra em casa.

Os relatos precisam ser edificantes; as relações buscam conflitos e diálogos acentuados a todo momento. Esporádicos closes dão lugar a enquadramentos que contemplam o cenário e mais de um indivíduo. Faz sentido, nessa configuração, que os personagens precisem se projetar perante os outros. Mas no cinema fica esquisito.

Denzel Washington facilmente domina a tela, conseguindo ainda conciliar com a função de diretor. Viola Davis tem menos momentos, mas se aproveita de todos eles. É no ato final, depois da virada, que ela cresce. A cena em que discute com o rosto cheio de lágrimas é a que vai para o seu portfólio.

Em Um Limite Entre Nós, vê-se um homem em uma bolha de ignorância e egoísmo. É lembrado, em certo ponto, que o mundo está mudando. No entanto, uma foto de Martin Luther King colada na parede só aparece no final. A desigualdade racial passa pelos Maxon, mas as escolhas individuais, atreladas às decisões de pessoas próximas, também definem futuros.

(Fences, , 2016) Dirigido por Denzel Washington. Com: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Mykelti Williamson, Saniyya Sidney.

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