A 13ª Emenda

a-13a-emendaEscravidão moderna

Nos Estados Unidos, a liberdade é relativa. Abraham Lincoln proibiu a escravidão em 1863, mas ela se fez por outras formas, na reinterpretação da décima terceira emenda, em que previa trabalhos forçados como punição a um crime cujo réu tenha sido condenado.

Criminalização é a palavra-chave do filme de Ava DuVernay, e pisca de tempos em tempos na tela. Procurou-se motivos para colocar a população marginalizada e indesejável fora de circulação, da “vagabundagem” (escravos foram libertados sem nenhuma estrutura para construir uma nova vida) a guerra às drogas, mais atualmente, usada também em outros países, e é um fracasso completo no que tange às substâncias ilegais, mas sucesso na detenção seletiva.

A 13ª Emenda levanta pontos importantes da história dos Estados Unidos, mostrando que a população carcerária aumentou consideravelmente, de tempos em tempos, até 2016. O acompanhamento também se dá por mandatos presidenciais. Ronald Reagan e Bill Clinton, em especial, representando ambos os lados do espectro político, tomaram decisões terríveis acerca do assunto, se afastando de uma reforma prisional justa, apoiando-se no medo da população a um inimigo comum, seja principalmente o negro, e depois o imigrante. Não à toa, Donald Trump e Hillary Clinton, candidatos em 2016, tem depoimentos dos anos 1980 exibidos, com ideias que seguem a mesma linha.

A privatização de presídios criou um cenário de esquemas entre empresas e governo, gerando dinheiro fácil e a prestação de precários serviços. A máquina precisava continuar funcionando, isto é, aumentando o número de detentos, mesmo que de forma artificial. Depois de os atores terem sido desmascarados, a obtenção de lucro foi obtida por outras vias, igualmente questionáveis.

O trabalho escravo continua na roda. Se latinos no setor manufatureiro e chineses na linha de produção tecnológica já são explorados a baixos salários e jornadas de trabalho exaustivas, e são ignorados pela sociedade, o que dizer dos presidiários nos Estados Unidos, que têm sua mão-de-obra explorada gratuitamente a grandes empresas, como a Victoria’s Secret, citada nominalmente?

O documentário é potente no destaque a casos particulares, como na de um rapaz ser considerado ameaça – implicitamente, por ser negro – e ser morto a tiros por outro cidadão, branco, sendo este absolvido, protegido por uma lei bizarra, e a de outro inocente, que ficou dois anos preso, sofrendo todo tipo de abuso porque não tinha dinheiro para fiança e não queria fazer acordo, se autodeclarando culpado.

A necessidade de mostrar o outro lado, na entrevista a um personagem corporativo, é mínima, pois as respostas são evasivas. Possivelmente, a intenção era atestar que ele não conseguiria rebater as críticas, o que não acrescenta ao restante do material apresentado.

O didatismo é intenso, mas útil, já que há particularidades dos Estados Unidos que podem não ser entendidas pelo resto do mundo. Um episódio passado, onde um negro vestido de terno e gravata é empurrado por brancos em um bairro residencial, encontra consonância em um presente, quando uma obesa negra sofre a mesma humilhação no meio de uma multidão. O filme não precisava colocar as duas cenas, uma na sequência da outra, sendo que a mais remota já tinha sido exibida antes. O espectador conseguiria fazer a conexão entre elas, facilmente.

Apesar de eventos importantes, como o movimento dos direitos civis e, décadas depois, a eleição de um presidente negro, o país mais rico do mundo continua racista e excludente, arrumando apenas outras formas para sê-lo e palavras para denominá-los. Longe de apresentar saídas, A 13ª Emenda quer mais é que o espectador esteja a par do problema. Porque será o primeiro passo para outras medidas.

(13th, , 2016) Dirigido por Ava DuVernay.

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