O Apartamento

Danos estruturais

Rana (Alidoosti) e Emad (Hosseini), um casal de múltiplas jornadas, precisam acrescentar a questão da troca de domicílio após o prédio onde moram ficar prestes a desabar. Atores à noite, irão encenar A Morte de um Caixeiro Viajante. Com ajuda de um colega da companhia de teatro, arrumam um novo apartamento, no qual os pertences de uma ex-inquilina, confinados em um cômodo, demoram a ser retirados.

A antiga moradora era uma prostituta, o que é revelado posteriormente. Sua presença ainda se faz na casa, e não é só pelos objetos: certo dia, acreditando que o marido está chegando, Rana deixa a porta aberta e vai tomar banho. Entra um antigo cliente, sem saber que não está mais em uma casa de libertinagem. O caos é gerado. A atriz vai parar no hospital, com terríveis lesões na cabeça e na alma. O agressor fugiu. Emad chegou depois, flagrado sangue pelas escadas e estilhaços de vidro no banheiro.

A cena-chave é suprimida; nunca é explicado o que aconteceu, tanto ao marido quanto ao espectador. A sugestão de estupro serve para o marido querer ocultar o incidente de outras pessoas. A decisão de não levar o caso à polícia é mútua. Mas o que fica no ar é venenoso: o fato de relacionar a esposa a uma prostituta (a sequência referente ao maço de dinheiro deixado é emblemática) soa ofensivo ao marido. Ele “entende” o que as outras mulheres passam na sociedade iraniana – vide a cena do táxi -, mas descobre uma nova gama de sentimentos quando o tema invade sua casa.

As pistas deixadas são muitas. Celular, chave do carro e o próprio veículo do invasor ficam para trás. Emad, o macho com o ego ferido, faz o trabalho de busca, enquanto a esposa lida com os próprios demônios, desejando se mudar novamente. Mas não é atendida. A comunicação do casal, então, é silenciada. Apenas no teatro, pelas falas dos personagens que interpretam, é que poderão exprimir alguma coisa.

Asghar Farhadi planeja o roteiro milimetricamente, inserindo elementos que serão reaproveitados posteriormente. O primeiro apartamento, inclusive, não é totalmente abandonado: serve para o confronto decisivo, onde personagem e cenário estão em destruição.

O drama é reduzido no terceiro ato no que diz respeito às características do indivíduo buscado. O diretor vai no caminho inverso do maniqueísmo, mas chega ao outro extremo. Os dilemas de Emad são direcionados às questões de família e saúde alheias, e não às próprias. A ação se muda para a observação, que mais tem a ver com as consequências da primeira.

Além de derrapar no final, O Apartamento tem a narrativa teatral que não dialoga com tanta naturalidade com a doméstica quanto pensa, além da escolar – Emad também é professor – que tem mais utilidade na complementação da cena do táxi, já que um aluno também estava no veículo.

Uma mudança nunca foi tão difícil. Não faria diferença se a informação sobre a ex-inquilina, que nunca aparece, fosse dada antes. Tão importante quanto o episódio de Rana está o que a rodeia. Basta o impensável acontecer para uma série de questões ocultas, da sociedade em que se vive, adentrar um lar e desnudar seus moradores.

(Forushande, , 2016) Dirigido por Asghar Farhadi. Com: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak Karimi, Farid Sajjadi Hosseini, Mina Sadati.

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