Jackie

De coadjuvante a protagonista

Além de primeira dama, Jackeline Kennedy (Portman) foi relações públicas, decoradora e um pouco de historiadora. Na primeira função, criou uma personagem durante sua estadia na Casa Branca, entre 1961 e 1963, apresentando os cômodos da residência presidencial em um documentário. As formas pré-definidas de agir ficaram de lado no assassinato do marido. Ela estava no carro, ao lado de John F. Kennedy (Phillipson), quando este recebeu um tiro, durante a visita a Dallas.

A vida pública e privada dos Kennedy já se misturava aos olhos do público. Depois da tragédia, queria-se extrair a “verdade” sobre Jackie. Qual seria? O período de luto e recomposição é incerto. Um tempo depois, é entrevistada pelo repórter da revista Life (Crudup), exerce certa autoridade e confere as anotações. Este, até o final do trabalho, é inverossimilmente transformado em devoto à mulher.

Jackie tem um conhecimento histórico considerável. Quer que o marido seja velado como Lincoln, com direito a procissão, cavalos e afins, embora ele não tenha registrado grandes feitos em quase três anos de mandato. Como afirma na entrevista, todo o circo era para ela. Enquanto isso, é “expulsa” da Casa Branca pelos Johnson. A cena de saída, quando flagra a esposa do novo presidente escolhendo cores para decoração, o que também normalmente faria, é emblemática.

Na maior parte do tempo, a protagonista é visualizada em grandes closes, adentrando sua intimidade. Curiosamente, mesmo depois dos últimos créditos, não é possível afirmar quem é ela. Trata-se apenas de um recorte, e não de uma cinebiografia tradicional e completa.

A visão alternativa é que ela seja uma figura fútil, que torra o dinheiro público em obras históricas valiosas para a Casa Branca, que poderão ser substituídas pelo próximo morador. Seu penteado indefectível e guarda-roupa suntuoso a tornam uma figura invejável. Apesar dos privilégios, pode ser vista com compaixão, pois é uma mulher que já perdeu dois filhos e marido; ainda há outros dois rebentos para criar. Tem a vida toda pela frente, como afirma alguém, mas, naquele momento, essa é a última coisa a se pensar.

A alternância entre ficção e realidade é um dos melhores exercícios do longa. Tanto no documentário quanto na procissão, imagens de arquivo e reconstituições se revezam. O assassinato demora a ser mostrado, mas a descrição do momento já é feita pela sobrevivente. A cena se dedica, então, ao choque da violência e à reação da primeira dama.

O esforço de Natalie Portman é notável. Ela cria uma figura que, sob o figurino de primeira dama, tem a identidade da atriz suprimida. A apresentação do documentário é o mais chamativo, em que ela tem a fala afetada, tentando se projetar tanto quanto a imagem da personagem.

Entre minutos de asfixia nos closes e planos abertos que tornam o ser pequeno dentro do contexto, Jackie é uma obra que cria mais perguntas do que fornece respostas. A moça, que não pediu para ser Kennedy, mas se acostumou a isso, foi ejetada de forma abrupta do poder. Tenta reunir os cacos que sobraram para encontrar algum sentido na nova vida de viúva.

(Jackie, , 2016) Dirigido por Pablo Larraín. Com: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt, Caspar Phillipson, John Carroll Lynch, Beth Grant.

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