Ave, César!

Funcionário multitarefa

Eddie Mannix (Brolin), executivo da Capitol Pictures, é o tipo do alto escalão que não fica aproveitando a posição ociosamente. Mal tendo tempo à família, o horário de trabalho é flexível. Transpira pelo estúdio cinematográfico e é ajudado por secretária; têm contatos diversos e jogo de cintura para conter o ego das estrelas.

A administração e manipulação de imagem das celebridades está em primeiro plano. Assim, ele consegue arrumar uma justificativa para a atriz-chave de filmes performáticos (Johansson), solteira, dar à luz a uma criança fruto de relacionamento extraconjugal, ou lidar com o sumiço do protagonista (Clooney) do épico religioso, de nome Ave, César.

Na verdade, Baird Whitlock, que interpreta um general romano, foi sequestrado por comunistas que trabalham como roteiristas. As cenas no cativeiro são divertidas, pois vão contra a expectativas de um confinamento. O ator é tão problemático no dia a dia, envolvendo-se com álcool e sexo, que ninguém se dá conta imediatamente de sua ausência. É por esse fio, não necessariamente importante, que o trabalho dos irmãos Coen é conduzido.

Percebe-se a vontade de transitar por gêneros, apresentando Hollywood clássica e a construção dos filmes. Depois de uma hora de duração, nem todos os personagens são apresentados. Nesse momento, aliás, que se conhece a montadora, interpretada por Frances McDormand, realizando a função artesanalmente, como se estivesse manipulando uma máquina de fiar.

Tem musical, faroeste, drama e dança. As cenas em cada set já funcionam individualmente, como curtas-metragens. Contudo, a vida real também parece um filme. A jornada de Mannix, muitas vezes, é ambientada como se fosse cinema noir, com direito a policiais subornados – no início – e à fêmea fatal – no escritório do advogado, onde Scarlett Johansson senta-se na mesa e reproduz um olhar sedutor.

O sequestro insere a insatisfação da classe escritora a respeito de sua importância em Hollywood. Emendando dois diálogos, relaciona-se roteiristas a prostitutas. Os executivos seriam os cafetões, embora Mannix seja visto mais como subordinado ao sistema. Certamente, há gente poderosa e sem escrúpulos acima dele. Na roda de pensadores, durante o cativeiro de Whitlock, os Coen ainda brincam com a complexidade no discurso dos falantes, usando toda hora a palavra “dialética”, como se fosse um mantra.

Mannix ainda tem que lidar com uma oferta de emprego: presidiria uma companhia aérea, sem lidar com o estresse e imprevisibilidade da sétima arte. O homem que o quer chama a aviação de “negócio”, enquanto que se refere a Hollywood como “circo”. Mesmo apresentando benefícios irrecusáveis, incentiva o executivo a continuar onde está com o preconceito.

Muito seguro e sem grandes conflitos, Ave, César! encontra virtude nas fraquezas, e vice-versa. O final da fala que Baird Whitlock esquece, na cena aos pés do Cristo crucificado, envolve fé: elemento que os irmãos Coen possuem de sobra, pelo deus Cinema.

(Hail, Caesar!, , 2016) Dirigido por Ethan Coen e Joel Coen. Com: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Channing Tatum, Frances McDormand, Jonah Hill.

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