Moana: Um Mar de Aventuras

Coração precioso

Em uma ilha do Pacífico, uma senhora conta às crianças a história de Maui, figura mítica que roubou o coração da deusa Te Fiti e enfrentou um monstro de lava. A única ouvinte a não se assustar é Moana, sucessora da tribo só sai para o mar se for nas proximidades. No entanto, é o mesmo mar que a escolhe para ser o seu desbravador. Infelizmente, os pais a impedem de toda forma, enquanto a avó, uma outsider, sutilmente a incentiva.

O tempo passa e a personagem-título cresce. A proibição ao infinito azul acaba sendo uma metáfora aos entraves de sua independência. Mesmo que seja adorada pelos semelhantes e contribua para as tarefas diárias, sua existência não é libertadora. Curiosamente, o centro da ilha, na pilha de pedras em cima de um pico, é mais representativo que as regiões periféricas, na costa. Moana quer ser uma chefe contra essa premissa.

Quando os cocos nascem problemáticos e os peixes rareiam, a escolhida finalmente pega uma embarcação à vela e parte em busca de Maui. O coração de Te Fiti, simbolizado por uma pedra verde, deve ser devolvido para, assim, restabelecer o equilíbrio da natureza. Até o objetivo final, será necessária a transposição de vários obstáculos, do ego do personagem masculino, rapidamente encontrado, a visita ao lar subterrâneo de monstros. O universo apresentado é abundante.

Moana: um Mar de Aventuras tem uma porção musical bem-sucedida, cantada em inglês e na língua maori. As canções são pegajosas e marcam passagens emocionantes ou engraçadas na jornada dos personagens, na voz dos dubladores. Durante os créditos, elas são repetidas, mas com efeitos e interpretadas por músicos profissionais, sendo menos memoráveis.

A qualidade da computação gráfica é extraordinária. O cabelo negro da protagonista, com ajuda de competente iluminação, é o mais belo desde o ruivo de Mérida, em “Valente”. A água atinge um nível de realismo impressionante. Contudo, a melhor parte é quando a garota se suja de areia: o detalhismo nos grãos é impressionante. Destaque também para o brilho neon do caranguejo gigante Tamatoa e das arraias que eventualmente aparecem.

A temática mais óbvia tem a ver com a negação do rótulo de princesa de Moana, a despeito de outras personagens do mundo da Disney: donzelas indefesas e salvas por mocinhos. A relação com o semideus Maui é conflituosa a maior parte do tempo, e o entendimento se dá pensando na criação de uma amizade. As tarefas, penosas ou não, são divididas mais por imposição da garota, que quer aprender a velejar ou tem uma estratégia para enfrentar certo inimigo.

Repetidas vezes, Moana fala quem é, em um claro reforço de identidade. Seu povo foi desbravador no passado, e ela quer resgatar essa memória. No presente, a carência por ambições é grande, não havendo preocupação pela estagnação até a morte.

Apesar da estrutura manjada, sem espaço para surpresas, Moana: um Mar de Aventuras é encantador na forma como lida com o que dispõe. Tem um alívio cômico eficiente – prefere uma galinha estúpida a um porquinho bonitinho na viagem marítima -, personagens notáveis (além de se achar celebridade, Maui interage com as próprias tatuagens e pode se transformar em animais) e cenários que nunca tornam a navegação tediosa.

Porque a história – dos filmes da Disney ou a contada a Moana quando criança – precisa encontrar novos caminhos, mas sem perder sua essência.

(Moana, , 2016) Dirigido por Ron Clements, Don Hall, John Musker e Chris Williams.

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