Passageiros

A vida, agora

As viagens interplanetárias são o negócio do futuro. Sim, o negócio. A Terra continua habitável, mas são alguns seres humanos que desejam se mudar. Além das naves-hotéis, a tecnologia avançada está na hibernação: os passageiros ficarão em cápsulas e o metabolismo será interrompido. O trajeto durará décadas, quase um século. No final, as pessoas continuarão da mesma forma, não envelhecendo um ano. De certo modo, trata-se de uma viagem ao futuro.

A experiência envolve abrir mão das pessoas que ficaram na Terra, já que elas seguirão o curso natural da vida, e morrerão antes. Uma decisão difícil, que cinco mil pessoas seguiram na nave Avalon. Como a viagem demora praticamente uma vida para ser feita, vale pensar na empresa Homestead, que lucra absurdamente, e é maior que qualquer indivíduo que a comande. Logo, trata-se de um projeto de longuíssimo prazo, que requer a sintonia de muitas vidas que passaram por sua administração.

Nos primeiros segundos, percebe-se que a nave tem poder de autorreparação, ao ser atingida por pequenos e médios meteoros. Só que um setor continua defeituoso, sinalizado por uma luz vermelha no painel de controle. Coincidentemente ou não, surge a primeira falha no setor de cápsulas, quando o engenheiro mecânico Jim Preston (Pratt) é acordado cedo demais, faltando noventa anos para o término da viagem. Ele tenta voltar à hibernação, mas não consegue. Aproveita a estrutura da nave-hotel, mas a solidão falará alto depois de alguns meses. Ao contrário da Avalon, ele iniciará um processo de autodestruição.

O primeiro ato de Passageiros é instigante. Apresenta a premissa em quinze minutos. No entanto, quando Jim tenta curar seu problema, ao decidir acordar Aurora Lane (Lawrence), uma escritora confortável financeiramente, as coisas começam a patinar. Há o dilema moral de condenar o próximo ao mesmo destino do primeiro personagem, abordado até o momento em que a mulher acorda. Na sequência, visualiza-se uma previsível trama amorosa, já que eles são o único casal, belo e saudável, disponível. Acima disso, a diferenciação entre ofensor e vítima causa conflito na simpatia do espectador pelos viajantes. O despertar manual é egoísta: depois de descoberto, Jim tenta se justificar redundando seu defeito, usando o sistema de som da nave para fazer com que Aurora o escute, onde quer que esteja. A cena constitui um tipo de assédio, por forçar alguém a fazer algo não quer.

A inserção do personagem de Laurence Fishburne é acessória, para que possa emprestar um crachá privilegiado da tripulação e oferecer diálogos expositivos. O romance implodido após a revelação de Jim tem uma segunda chance quando a ação, sob risco de morte, entra em cena. Infelizmente, o roteiro simplifica missões e empurra resoluções inverossímeis. Consequentemente, acaba defendendo a conduta do engenheiro mecânico. Pode-se citar a nova chance de reparação do ocorrido, mas a reação de Aurora a ela continua atrelado ao desejo de entregar um desfecho pré-definido.

Chris Pratt é bom no primeiro ato. Para ajudá-lo, está Michael Sheen, que interpreta um comunicativo barman-robô, não comprometedor em momento algum. Já Jennifer Lawrence é limitada no estereótipo de mulher dos sonhos pelo macho dono das decisões. Sai-se razoável quando está sozinha, o que é raro. Fishburne tem a função já citada e, entre as estrelas, Andy Garcia tem o cachê mais fácil recebido em sua carreira pela rápida participação. Sua escalação é um mistério.

Passageiros é como a nave Avalon: possui estabilidade inicial, mas depois cai, como os objetos de cena no colapso geral do sistema. A falha humana, daqueles que conceberam esta obra, é mais problemática do que a mecânica, na história.

(Passengers, , 2016) Dirigido por Morten Tyldum. Com: Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia.

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