Zootopia: Essa Cidade é o Bicho

Cidade rachada

O sonho da pequena coelha Judy Hopps, que vive na zona rural, é se tornar uma policial e desempenhar a função de detetive na cidade grande. Só que o setor é composto basicamente por predadores gigantes. Ela é desestimulada por todos a sua volta, mas acredita em si mesma e luta pelos sonhos (dois clichês clássicos), conseguindo chegar onde quer. Infelizmente, será malvista pela corporação, sendo relegada à guarda de trânsito.

Zootopia: Essa Cidade é o Bicho contém vários filmes dentro de si. Depois de certa coletiva de imprensa, mais uma história acaba, mas outra se revela rapidamente. Ainda assim, o que une tudo está ligado ao desaparecimento de catorze predadores. Judy entra no caso quando é requisitada por uma lontra a encontrar seu marido. O chefe, Bogo, não gosta da insubordinação, mas mediante algumas ações, dá o prazo de 48 horas para a coelha encontrar o animal. Se fracassar, ela será forçada a se demitir.

A cidade-título é diversa. Contém bairros diferentes entre si, em vegetação e clima, para abrigar a gama de animais e suas necessidades. O centro, contudo, é a metrópole, com arranha-céus, avenidas e lojas. Conforme apresentado no início, os personagens abdicaram da função de predador ou presa para conviverem harmonicamente. O acordo, contudo, é relativo. Há preconceitos e restrições interiorizados pelos habitantes.

O trem que leva Judy a Zootopia é o exemplo mais democrático, pois contém diversas portas, para cada tamanho de animal. A divisão de bairros é prática, mas consegue-se perceber uma guetificação. Como diferentes bichos podem interagir socialmente em áreas que não sejam obrigados? A limitação de raposas comprar sorvetes no comércio de elefantes é simbólica. Ela é ilegal, mas praticada.

A questão racial é tão presente que coelhos não gostam de ser chamados de “fofinhos” por animais que não sejam eles. Lembra o nigga dos afrodescendentes, na sociedade norte-americana. Há a opressão de grandes sobre pequenos seres, que acaba havendo uma união, por exemplo, entre o coelho e a vice-prefeita, uma carneira, restrita à função de secretária.

No terceiro ato, o preconceito se inverte, apoiado no fantasma do medo. Relaciona-se, claro, a imigrantes que são associados com terroristas por governos de Europa e Estados Unidos. Na coletiva de imprensa em que Judy ingenuamente sugere o sentimento negativo, ela responde à raposa Nick, que se tornou seu amigo, e está ofendido, que apenas relatou o caso. Um erro muito comum da imprensa atual, que ignora a contextualização e entrega um conteúdo com outro sentido, propositalmente ou não.

As referências culturais estão em quantidade razoável. O roedor que evoca o protagonista de O Poderoso Chefão tem importância na investigação de Judy, enquanto que os filmes piratas vendidos na rua, remetendo a outras animações do estúdio, são engraçados. A citação à série Breaking Bad, no entanto, é redundante: se o espectador não a notou nos trajes de coadjuvantes, ainda tem o nome das criaturas para isso.

Os pontos fracos estão no número musical de Shakira, que dubla uma gazela artista, e na resolução geral da trama, principalmente. Nesta, depois de amargar uma derrota, Judy retorna às origens e, coincidentemente, vê as respostas surgirem a sua frente, daquela que encontra no campo a conveniente revelação de um vilão, que deveria estar exercendo sua função oficial, mas surge no meio de uma perseguição.

Geralmente, a crítica de cinema gosta de categorizar animações, se são só para crianças ou incluem também adultos. Zootopia: Essa Cidade é o Bicho inclui ambos os públicos, mas o conteúdo maduro é forte, e estimula os mais velhos a apresentar assuntos que os pequenos só se importariam mais tarde. Ou seja, trata-se de uma produção inclusiva também em sua abordagem. Uma aula de cidadania.

(Zootopia, , 2016) Dirigido por Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush.

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