Mulheres do Século 20

Uma década a menos

Dorothea (Bening) gerou Jamie (Zumann) depois dos quarenta anos, e o criou sem pai. Durante a adolescência do moleque, vê-se perdida nas mudanças da época (1979) e local (Califórnia), mas quer que ele se torne um homem exemplar. Pede ajuda à adolescente Julie (Fanning), amiga e paixonite dele, e Abbie (Gerwig), fotógrafa que mora como inquilina na mesma casa. O restaurador e artista plástico William (Crudup), único homem adulto da história, não possui muita intimidade, e tem os próprios problemas.

Em Mulheres do Século 20, os personagens buscam saídas contra a carência. Dorothea nasceu durante a Grande Depressão, quando as pessoas se ajudavam mais. Esse espírito ainda existe, só que menor; o individualismo está batendo à porta, e essa pode ser a última chance deles, isto é, se se entregarem às novas tendências.

O punk rock é o que move os jovens de 1979, gênero que usa mais a emoção do que a razão. Mas é uma onda com prazo de validade curto, como sinalizado. Aberta a várias discussões, Dorothea tenta entendê-lo. O que não consegue nem aceitar, porém, é quando a educação terceirizada do filho sai dos limites que ela internamente impõe, envolvendo sexo e feminismo. Pode-se dizer, então, que ela se torna conservadora, pelo menos nesses assuntos?

De forma premeditada ou não, um ajuda ao outro: da adolescente que dorme, sem interesses sexuais, na cama do rapaz, da mulher que compartilha as fotos de seu novo ensaio e aproveita trocar amassos, e assim por diante.

O filme lida com elementos da época escolhida passando um pouco da utilidade à narrativa e se inserindo no lugar quentinho da nostalgia. As camisetas de bandas e os trechos de livros para se superexpressar são dois exemplos claros. O vaivém temporal, seja para fazer uma minibiografia dos personagens ou sinalizar como eles continuarão suas vidas, expandem caracterizações e mostram que todos estão destinados às mesmas atribuições (casamentos, filhos), não os tornando necessariamente especiais.

O viés feminista é inserido organicamente, havendo demonstrações que não podem necessariamente funcionar, mesmo com todas as boas intenções do mundo ao garoto. Jamie não aceita a rejeição da amiga, não importando a justificativa dela, mas somente a decisão. É baixa a tentativa de usar o espaço extra na cama como poder de barganha para o sexo e incômodo que o incentivem a fazer isso, a “tomar as rédeas”. Insiste-se demais nessa questão.

Apesar dos pesares, é notável como essa família informal se sustenta. Os personagens simplesmente se encontram na casa de Dorothea e começam a compartilhar os problemas. Talvez a desconfortável série de revelações na mesa de jantar, em reunião com outros estranhos, seja consequência.

Quando dois personagens estão relativamente longe, os outros vão ao resgate. Ao chegar, os problemas repentinamente somem, ou entram em estado de suspensão. Todos estão se alimentando de comida chinesa e dançando. Em uma época ainda sem internet e smartphones, a reunião é forte. Mesmo com a presença da televisão, o grupo se une para ver determinado programa. Cada um fica em seu canto apenas quando precisa, e não por imposição de tecnologias e valores.

Um dos personagens morre, ironicamente, às vésperas do ano 2000. Ficou paranoico com o “bug do milênio”, mas não teve chance de presenciar o seu não acontecimento. Contudo, ele já passou por muitos momentos de transição, sendo esse insignificante, pensando em um contexto maior.

Jamie certamente encontrou menos respostas do que perguntas em suposta educação, se é que ele questionava suficientemente o mundo aos quinze anos de idade. O que importa é que ele conviveu com um grupo relativamente privilegiado, adicionando cargas importantes a sua bagagem intelectual.

Mesmo fazendo um limitado recorte de tempo, local e personagens, Mulheres do Século 20 é satisfatório em seus 119 minutos. Mais do que resultados, o importante é a constante discussão e contestação dos limites do ser humano, seja em qual século for.

(20th Century Women, , 2016) Dirigido por Mike Mills. Com: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann.

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