Estrelas Além do Tempo

A fórmula da igualdade

Katherine Goble (Henson) foi uma criança superdotada nos Estados Unidos dos anos 1920/30. Teve oportunidades e ganhou espaços, trabalhando na NASA em plena corrida espacial, durante a Guerra Fria. Caminhos similares tiveram suas amigas, Dorothy Vaughan (Spencer) e Mary Jackson (Monáe). O trio de matemáticas e mais um punhado de mulheres negras tiveram um lugar privilegiado entre as pessoas de sua raça, mas não da agência governamental. Naquele microcosmo, a segregação se passava igual ao lado de fora, com banheiros, bebedouros e outros elementos exclusivos para pessoas “de cor”.

Escritórios centrais precisavam de habilidades específicas, encontradas apenas no segregado setor oeste. Katherine, a protagonista, ganhou uma mesa própria entre brancos, e se deparou com muitos olhares tortos, que o filme faz questão de escancarar. Mary, com maior espírito contestador do grupo, foi para a área de testes; obrigada a fazer pós-graduação para continuar destacada, acionou a Justiça para ter o direito de estudar em uma escola que não admitia negros. Dorothy, por sua vez, recebeu várias negativas para ser supervisora, precisando ter iniciativa e se adiantar em certos conhecimentos – na operação do gigantesco computador IBM – para quebrar barreiras.

A urgência de os Estados Unidos ficarem na frente – a União Soviética já havia lançado Yuri Gagarin ao espaço – foi o catalisador de mudanças na NASA, malsucedida em cálculos e cenários. O trio feminino esteve na hora e lugar certos, mas precisou sofrer muito para isso. Ajudou indiretamente à sua raça, mas as conquistas foram exclusivamente por mérito.

Não há um sinal claro de que os direitos são para todos, não importando o talento, o que pode gerar algumas leituras errôneas, separando a NASA da sociedade. Mas há certos clichês preconceituais: “não queremos problemas aqui”, “seguimos ordens” e a confusão de direito com privilégio (o que as matemáticas não possuem).

Estrelas Além do Tempo não cria antagonistas exagerados, com intenções malvadas, embora a reação geral é incômoda na falta de sutileza. A primeira quebra de paradigma, envolvendo banheiros, é resolvida com forte caráter simbólico – a destruição de uma placa restritiva. Al Harrison (Costner) é o responsável por isso, mas é preciso aceitar sua ingenuidade. O desabafo de Katherine, que precisa andar 1 quilômetro até outro prédio para usar o “seu” banheiro, contudo, é libertador, na cena de Taraji P. Henson.

A subtrama familiar desta personagem é um tanto descartável. Ela, viúva, acaba sendo apresentada a um general, considerado ótimo partido. Primeiramente, a união com uma pessoa de mesma importância social, e não com qualquer outro que não seja destacado pelo pastor da igreja, soa excludente, por mais que essa seja a adaptação de uma história real. Depois, o vaivém do casal, com o homem cometendo um erro, para depois se redimir, é um tanto artificial.

Os antagonistas que ganham rosto não comprometem, mas também não se destacam. Jim Parsons cria uma barreira fácil de ser transposta, enquanto Kirsten Dunst se limita a ficar com a cara amarrada. Esta, pelo menos, possui uma cena boa, contracenando com Octavia Spencer: quando as personagens se encontram no banheiro, pela primeira vez, se comunicam primeiro olhando pelo reflexo no espelho. O diálogo se encerra conciliador, com o olhar direto entre as figuras.

Arrumando espaço, mesmo que pequeno, para abordar também os direitos das mulheres (note-se que as duas figuras femininas do departamento usam uma roupa colorida, enquanto os homens estão de branco) e trabalhistas (das condições instáveis a concorrência vindoura com as máquinas), Mulheres Além do Tempo tenta obter o máximo de eficiência, embora comece aborrecido e tenha uma trilha sonora ruim e redundante.

No fim, é um funcionário branco que acaba correndo 1 quilômetro para buscar Katherine. Ser útil é bom. Ter os mesmos direitos dos demais é necessário.

(Hidden Figures, , 2016) Dirigido por Theodore Melfi. Com: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali.

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