Silêncio

Omissão dos céus

No século XVII, o Cristianismo buscava dominar a Europa pela Inquisição. Em outros continentes, recém-descobertos, também, mas o desafio era maior. Na América Latina, jesuítas escravizavam e/ou matavam índios, considerados incultos sem a catequização. No Japão, cenário de Silêncio, as raízes do budismo eram sólidas. A fé cristã foi duramente reprimida, em uma inversão de papéis.

A intenção dos jovens padres portugueses Rodrigues (Garfield) e Garupe (Driver) é reencontrar o mentor Ferreira (Neeson) na Terra do Sol Nascente. Segundo boatos, o personagem mais velho não resistiu às pressões e renegou a própria fé, absorvendo a cultura local.

Na chegada, são recepcionados por alguns japoneses cristãos. Passam a ouvir confissões, celebrar missas e batizados. Conectam-se à população. Só que o perigo repressor finalmente chega. Rodrigues, especialmente, terá que por sua missão como padre à prova, escolhendo a tortura e aniquilação desses inocentes ou a apostasia, isto é, a negação da própria fé.

O sacrifício, imposto pelos censores, é pisar em uma imagem católica. Simbolicamente, trata-se do pior pecado. Rodrigues é orgulhoso; espera ouvir uma resposta de Deus, mas só encontra silêncio. Chega a enxergar a figura de Cristo na água, refletida, ou se parecer fisicamente com ele: a associação é clara. Os dilemas são carregados por um bom tempo, enquanto inquisidores tentam fazê-lo desistir, das mais diversas formas. Inoue (Ogata), o líder da repressão budista, tenta argumentar com eufemismos e terceirizar a culpa pelas mortes – que não é de seu grupo, mas do Cristianismo, que tenta colocar sementes no solo infértil japonês.

Há uma noção de defesa da cultura japonesa, contra o expansionismo ocidental, que não suaviza as punições. A violência contra os cristãos choca de inúmeras formas, da decapitação, com um rastro de sangue sobre a terra, a crucificação à beira-mar, trazendo a morte pela paciente força da maré.

Entre sacrifícios físicos e espirituais, está Kichijiro (Kubozuka), errático e pouco confiante guia dos padres, que foi egoísta ao não se sacrificar junto com a família cristã, no passado. Solitário, continua pisando em falso, ou melhor, pisando na imagem cristã, a fim de salvar a própria pele. Curiosamente, sempre retorna a Rodrigues em busca de confissão e perdão. Banaliza o mecanismo, enquanto, paralelamente, um casal mal informado acredita que o batizado do filho levará este ao Paraíso.

Exigente, com 161 minutos de duração, Silêncio não tenta ser arrogante na busca de verdades. É unilateral, insistente e sofrido. O embate entre dois pontos de vista é desequilibrado por se passar no território dominante de um dos interlocutores, mas tem alguns pontos expostos.

No fim, tão importante quanto a mudez divina é a de Rodriguez, que pode ser traduzida, na verdade, em atitude. A atitude, se cedê-la, em salvar fiéis. Porque o jogo de manter alguma liberdade religiosa no Japão ou reforçar a própria fé parecem perdidos.

(Silence, , 2016) Dirigido por Martin Scorsese. Com: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Issei Ogata, Shin’ya Tsukamoto, Yoshi Oida, Yôsuke Kubozuka.

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