O.J.: Made in America

O crime-espetáculo

O.J. Simpson, famoso jogador de futebol americano do passado, ator e garoto-propaganda de várias marcas, tinha uma vida perfeita. Era o único negro residente em Brentwood, bairro de classe alta em Los Angeles. Contudo, o casamento com Nicole Brown, branca e loira, explicitou sua faceta dominadora e descontrolada. Terminou na morte dela, em 1994. O único suspeito era o marido.

Iniciou-se, então, o chamado “Julgamento do Século”, durando aproximadamente um ano e com câmeras no tribunal, com ampla transmissão. O destino de Simpson se consolidou como espetáculo midiático. A vida dele já era assim, mas somente pela autopromoção. A partir do episódio da fuga automobilística, assumiu contornos maiores.

Com quase oito horas de duração, O.J.: Made in America abrange o máximo possível da vida de seu protagonista. Começa dividido em das histórias: do excepcional atleta que se sobressaiu em um ambiente de brancos e das tensões raciais nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia. Curiosamente, O.J. se manteve à parte de tudo, ignorando a comunidade negra e querendo ser reconhecido apenas pela personalidade, e não pela cor da pele. Durante o julgamento, seus advogados, muito bem pagos, utilizaram o racismo para criar uma teoria conspiratória, a partir de um policial branco com passado bastante questionável. Mesmo com exames de DNA positivos, levantava-se a ideia da plantação de provas. A população negra, inflamada por episódios recentes de violência policial contra ela, apoiou totalmente Juice, como era conhecido o ex-jogador.

Lá pela terceira parte (o documentário é dividido em cinco), o tribunal toma conta da tela. O veredicto é menos importante que os argumentos da defesa e da promotoria para convencer o júri, cujo processo de escolha também é abordado. Há erros de todas as partes, inclusive do juiz, que não conseguiu filtrar o debate. Acabou descambando para tramas paralelas e inúteis, o que era ótimo para a defesa de Simpson.

O sistema judicial americano se mostrou frágil desde o princípio. Para funcionar, também necessitava de uma sociedade justa, o que não ocorria. O julgamento expôs, com mais força, o conflito entre raças, tornando-se um Fla-Flu compreensível. Há ainda outras duas rodadas, que evidenciam ainda mais a sede pela fama de O.J., e as consequências dela. O julgamento em Nevada talvez seja um pouco corrido, mas embute intenção extra em um aparente cumprimento de leis.

Há a satisfação temporária de um grupo oprimido, a partir de determinado acontecimento, mas será que tiveram consciência disso? O.J. usou o coletivo em prol de uma batalha individual. O inverso também aconteceu: na época dos Panteras Negras, queriam que O.J. aderisse à causa, mesmo sob risco de prejudicar a carreira, como aconteceu com Muhammad Ali na defesa de direitos civis; durante o julgamento, havia a consciência de alguns ativistas pela causa maior, que não o homicídio duplo (além de Nicole, um amigo dela também entrou na conta).

A violência doméstica surge silenciosamente na trama; não é feito um tratado, mas as informações estão disponíveis, embora sirvam mais como prova à brutalidade do protagonista. No retorno a Brentwood, contudo, por toda a contextualização, fica mais a impressão de racismo dos moradores, que não permitem um minuto de respiro, do que o desejo de justiça.

O caso é complexo, embora, até certo ponto do julgamento, os sinais apontem para a culpa do acusado. A manipulação das partes, inclusive de O.J., que executava feições estudadas em frente às câmeras, tornava o processo cada vez mais contaminado. A vontade é de escutar argumentos convincentes e ficar em dúvida, mas não é o que acontece. Os personagens pendem mais para a sordidez.

O cartaz do filme, com o objeto-chave do crime pintado em vermelho, branco e azul, comunica perfeitamente um dos assuntos centrais: O.J. fez suas escolhas, mas baseadas no jogo da sociedade em que viveu. Foi o negro domesticado a fim de vender produtos a brancos, mas também foi o perseguidor obsessivo pela fama, se aproveitando e sofrendo por ela. Na América capitalista, a notoriedade é tão viciante quanto cocaína.

(O.J.: Made in America, , 2016) Dirigido por Ezra Edelman.

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