Deus da Carnificina

Da hospitalidade à hostilidade

Um garoto agride o outro com uma vara de madeira, no parque. Os pais deles, então, reúnem-se no apartamento de Penelope (Foster) e Michael Longstreet (Reilly), os genitores do agredido. Uma reunião somente de adultos, bastante civilizada, que começa a descambar para o animalesco quando um casal começa a ditar regras na educação fornecida pelo outro e, coincidentemente, quando se dá um episódio literalmente nauseante.

Sob direção de Roman Polanski, adaptado da peça de Yasmina Reza, o longa praticamente se concentra em um cenário fechado. O mundo sem paredes apenas abre e fecha a história. O encontro parece rápido, em vias de se encerrar, mas logo qualquer assunto coloca novamente as pessoas dentro do apartamento, por mais que os visitantes, a corretora Nancy (Winslet) e o empresário Alan Cowan (Waltz), pareçam ocupados. Os casais representam pensamentos antagônicos, mas não significa que são santos; nenhum deles.

As máscaras começam a cair após um desarranjo físico do ambiente, em que os personagens se fragilizam – Alan fica sem calças no banheiro, enquanto Penelope tem alguns de seus singulares objetos pessoais danificados. Não há vara para agredir o próximo, mas a bebida alcóolica ajuda a desinibir e iniciar o ataque verbal. O resultado não é tão impactante, e entrega algumas atuações exageradamente artificiais (especialmente de Kate Winslet).

O elenco masculino reproduz tipos de personagens já bem conhecidos de seus intérpretes. John C. Reilly é o ingênuo que não consegue ficar verossimilmente irritado, enquanto Christoph Waltz é o sujeito irônico. O estereótipo conhecido no ator austríaco, contudo, funciona bem aqui. As chamadas inconvenientes no celular do advogado são bem-vindas para interromper a discussão e criar divertidos constrangimentos.

Os embates são enganosamente inteligentes, assim como a classe privilegiada nova-iorquina em que os personagens se inserem. A hipócrita solidariedade pela miséria africana por parte de Penelope, estudiosa de assuntos sobre o continente, contrasta com o espaço rico e cheio de mordomias de sua casa. Percebe-se também, na arena de ideias, a troca de parcerias: a princípio, Longstreet contra Cowan; depois, homens contra mulheres. Nota-se que o assunto inicial é relegado a segundo plano.

Em Deus da Carnificina, a preocupação maior é com o hamster do filho que Michael abandonou na rua, à própria sorte. Os adultos, de bem-resolvidos, não têm nada. As crianças foram estopim para essa desastrada interação, e poderão repetir a cena no futuro, como pais preocupados e/ou narcisistas.

(Carnage, , 2011) Dirigido por Roman Polanski. Com: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly.

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