O Lobo Atrás da Porta

Amantes inconstantes

Uma criança é sequestrada no Rio de Janeiro quando uma desconhecida se faz passar pela vizinha da mãe para buscar a menina na escola. Os genitores vão à delegacia para fazer o boletim de ocorrência. A suspeita é introduzida rapidamente, necessitando de uma revelação desconcertante para tal: o adultério pela parte masculina. Mesmo assim, naquele recinto cujo delegado reclama de não querer ser terapeuta de casais, o segredo é privado da esposa, mesmo com a amante aparecendo para prestar depoimento.

Bernardo (Cortaz) trabalha na administração de uma linha de ônibus público. Certo dia, por iniciativa própria, se apresenta a transeunte Rosa (Leal), que retribui o flerte. Os dois vão para um apartamento alugado, passam a transar regularmente, mas ele esconde que é casado. Poderia ser atestado que a vida do sujeito com Sylvia (Nascimento), com quem tem uma filha, não ia muito bem, mas a narrativa é traiçoeira e não linear, baseada no depoimento dos personagens ao delegado. Muitas imagens são falsas, fazendo o espectador rearranja-las de outra forma na cabeça, a fim de criar um sentido. O mais latente é que os depoentes ainda escondem muitos detalhes importantes, pois hesitam ao falar.

O caso policial é resolvido até a última cena, mas as motivações são mais importantes. Os envolvidos têm seus ares de humanidade eventualmente expostos, como o desejo de viajar de carro e fugir de obrigações dele ou a ilusão de um novo amor dela, despedaçado gradativamente conforme conhece Bernardo. Aos poucos, eles são revelados frios e calculistas. O momento mais chocante é quando um deles chega na casa de alguém e pede para falar com esta não tão longe e nem separado por um portão, mas na calçada. O encadeamento de acontecimentos até o pós-ápice é terrível, talvez mais intenso que o desfecho principal, num descampado de terra.

Em O Lobo Atrás da Porta, Fernando Coimbra tem algumas escolhas curiosas, como a passagem de Rosa por uma cerimônia religiosa, na lavagem da escadaria de uma igreja, representando a purificação que precede uma contaminação. O ambiente doméstico da personagem também é digno de atenção, com pais “zumbis” (mais o velho do que a mãe, que apenas recebe as pessoas, sem questionar), o que provavelmente molda a personalidade da moça.

As noites quentes no apartamento sem morador fixo se tornam chuvosas. Um quase estupro migra para uma violência psicológica de deixar os pelos em pé. Paralelamente, críticas são feitas à sociedade, seja na facilidade na obtenção de armas de fogo, em tempos que certos loucos defendem a liberação geral delas, ou de práticas médicas clandestinas, ainda mais contra o consentimento de uma das partes, que põe em risco a vida dos pacientes.

Baseado em um incidente nos anos 1960, que o filme oculta e vale a pena não saber de antemão, O Lobo Atrás da Porta, passado nos dias atuais, mostra que, décadas depois, ainda falhamos como seres humanos.

(O Lobo Atrás da Porta, , 2013) Dirigido por Fernando Coimba. Com: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabíula Nascimento, Juliano Cazarré, Thalita Carauta.

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