Os Smurfs

O azul é a cor mais chata

Na vila Smurf, onde todas as criaturas azuis recebem o nome de acordo com sua característica principal, Papai Smurf recebe a visão de que seus pares se encontrarão em perigo contra o vilão Gargamel. O escanteado Desastrado está envolvido, e aparentemente não terá grande sucesso no enfrentamento. Pronto, basta isso para que o espectador mais experiente preveja boa parte da história.

Gargamel invade a vila, mas encontra resistência. Ele, seu gato Cruel e mais seis smurfs acabam parando em Nova York, por meio de um portal. No caos da cidade grande – onde não estão acostumados, mas se adaptam razoavelmente -, o desejo do malvado é a captura dos azuizinhos para a obtenção da essência que o tornará invencível. Os smurfs, por sua vez, se metem no caminho de um casal, com problemas profissionais e familiares, que terá de dar atenção aos forasteiros.

A falta de originalidade, na escolha de uma metrópole como pano de fundo, é tão grande que, no segundo filme, feito apenas dois anos depois deste, ainda batem na mesma, só que em Paris. O resgate à obra popular do passado tem, mais do que nunca, a intenção de vender produtos licenciados. Isso é tão literal que, dentro de uma loja, os protagonistas são confundidos com brinquedos e perseguidos por crianças, que querem comprá-los. Há ainda espaço para uma nem um pouco sutil propaganda de chocolate.

A mistura de computação gráfica – dedicada aos smurfs e à Cruel – com cenários e atores de carne e osso não é competente. Basta um close para perceber o movimento sem vida dos olhos de Desastrado ou o mal acabamento de Cruel, em frente a um fundo branco.

Os smurfs irritam com sua tradicional cantoria, mas está no pacote, assim como a inserção de sua “raça” em todo o verbo. Acaba-se acostumando com esta, mas é impossível não notar um certo narcisismo em “smurfizar” tudo.

O Gargamel de Hank Azaria possui um visual cartunesco, que se encaixa e também não se encaixa à fauna diversa de Nova York. O personagem em si não é bem escrito; atira para todos os lados, encontrando um QG perfeito no Central Park e desperdiçando um resíduo de poção, obtido por acidente, com uma estranha.

O casal feito por Neil Patrick Harris e Jayma Mays é constrangedor, possuidor dos típicos problemas de classe média urbana – é difícil se importar com a provável demissão do rapaz, por exemplo. A cena deste jogando Guitar Hero com os smurfs é de uma “criatividade” deslocada, quando uma câmera é inserida na ponta da guitarra-joystick, proporcionando uma visão subjetiva do objeto.

A personagem de Mays, grávida, é despida de conflito relevantes. O maior é quando ela percebe que irá sozinha ao exame de ultrassom. Sua desnecessária existência, aliada à cena em que o marido e Papai Smurf conversam sobre paternidade, mostra que as mulheres são acessórias à trama. Smurfette, outra figura feminina, recebe mais atenção quando descobre que pode… usar vestidos diferentes. É muito descaso a elas.

Com uma série ditados manjados, como “siga seu coração”, a ressurreição de Os Smurfs mostra que não há para onde ir, seja no meio da natureza ou batendo pé mundo afora. O formato meio a meio só funciona quando as duas partes são interessantes, o que não acontece aqui.

(The Smurfs, , 2011) Dirigido por Raja Gosnell. Com: Hank Azaria, Neil Patrick Harris, Jayma Mays, Sofía Vergara.

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