O Destino de uma Nação

O clima das ruas

Winston Churchill (Oldman) não era querido por seus pares. Temido pela realeza e dono de projetos fracassados, acabou se tornando primeiro ministro britânico durante um momento agudo de Segunda Guerra Mundial, por um acaso do destino – o favorito inicial recusou a oportunidade.

Depois de tomar boa parte do leste europeu, os nazistas invadiam a Bélgica. O dilema da grande ilha ao norte estava entre arranjar um acordo de paz (desejo de boa parte do parlamento) ou guerrear, mesmo com parcos recursos (decisão solitária de Churchill). Paralelamente, há a desiludida missão de salvar os últimos soldados do país, encurralados no norte da França – tema principal de Dunkirk, feito no mesmo ano por Christopher Nolan, e parcialmente em Desejo e Reparação, do mesmo Joe Wright daqui, em 2007.

O político antipático sai literalmente das sombras – ou da escuridão total – para os holofotes, embora tenha renunciado a privacidade desde que entrou para a vida pública. Isso é sentido nos olhares familiares durante a pequena comemoração de nomeação e martelado diversas vezes na reprodução de sua rotina quando, por exemplo, funcionários entram em seu quarto quando ele deveria estar dormindo ou o aguardam no banheiro, separados por uma divisória, enquanto o velho faz suas necessidades.

A ideia de convocar adversários políticos para compor a equipe é boa para evitar desconfianças, mas gera intrigas insuficientes. O mais proveitoso na pressão do cargo está ligado a fatores externos, como a queda em Calais (ainda havia Dunquerque), a não colaboração do governo americano e a iminência na invasão do Reino Unido.

As três cenas com o rei Jorge VI (Mendelsohn) mostram bem a evolução de relacionamento entre as partes, do formal “primeiro dia”, em que eles são separados por faixas de luz e sombra de um grande aposento, passando pelo almoço em que o primeiro ministro fala dos pais, chegando à visita real inesperada, incluindo conselhos e entendimento.

A datilógrafa Elizabeth (James) representa, sem necessidade, o olhar do espectador e também o povo, que Churchill negligenciava – nunca tinha pego um metrô na vida. A menina é convidada a entrar na sala principal em um momento dramático, para lá de expositivo, e ainda tem rapidamente jogado um problema pessoal na tela. Ninguém se importa. Já o contato com o povo a sociedade se dá de maneira discutível, assim como a virada de opiniões, introduzindo um discurso edificante, no parlamento.

O Destino de uma Nação é obra com um personagem falho, mas humanizado, na decisão importante de um evento que ainda teria muita pedra a rolar. Trata-se de uma cinebiografia parcial, que não precisa ir do parto à lápide, mas que necessita de mais informações para justificar alguns acontecimentos. Do jeito que está, simplificado, situa Churchill como solitário salvador da pátria, o que pode ser difícil de aceitar.

(Darkest Hour, , 2017) Dirigido por Joe Wright. Com: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Lily James, Ronald Pickup, Stephen Dillane.

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Vingadores: Era de Ultron

Ilha flutuante

Na segunda fase do Universo Cinematográfico da Marvel, as apresentações são dispensadas. A Era de Ultron já introduz os Vingadores em uma missão, com a incansável perseguição de enquadrá-los em um único plano – o que acontecerá novamente mais tarde. A reunião ultrapassa a ação, e não são poucas as tentativas de colocá-los em momentos relaxantes, antes de uma investida.

O elemento alienígena existe, mas é coadjuvante. O vilão é interno e tecnológico, como em Capitão América 2: Soldado Invernal, embora a culpa pela criação não-intencional seja de um dos mocinhos, o Homem de Ferro (Hulk pode ser coautor, mas a barra é aliviada para ele), que recapturou o Tesseract, tentou usá-lo para prevenir futuros ataques inimigos, mas não enxergou o potencial negativo.

Quando o plano é descoberto, Capitão América prontamente se opõe, há um conflito com Stark, mas é esquecido em decorrência do perigo, e artificialmente apaziguado no final, para servir de combustível para um próximo filme.

A ameaça Ultron é um robô com bochechas circulares côncavas chamativas, um sarcasmo tipicamente tonystarkiano não impressionante e um plano de destruição mundial clichê. Há viagens à costa africana e à Coreia do Sul para obter equipamentos, que geram cenas de ação dignas, e um clímax em um país fictício do leste europeu, pronto para ser destruído e ninguém se importar, que insere luta contra capangas-robôs descartáveis e operação de resgate. A Batalha de Nova York, que possui algumas semelhanças com essa, era melhor.

Três integrantes são adicionados aos Vingadores, não sem antes serem considerados ameaças. Só que possuem pouco tempo para se desenvolver. A Feiticeira Escarlate (Olsen), pelo menos, é funcional em encontrar fraquezas nos heróis, embora o efeito de seus poderes psíquicos não seja melhor que a manipulação mental de Apocalipse em X-Men: Apocalipse, para ficar em um exemplo. Nos ataques, o espectador tem melhor aproveitamento ao conhecer parte do inédito passado da Viúva Negra (Johansson), que ganhará filme solo, segundo anunciado em 2018. O feitiço no Hulk, por sua vez, gera uma cena de ação extra cujo tempo poderia servir para dar mais substância à história. Resta a oportunidade de vender o novo boneco no Homem de Ferro bombado, especialmente para combater o Gigante Esmeralda.

Entre as figuras já conhecidas, Thor se desgarra estranhamente do grupo para fazer uma investigação inoportuna, que servirá a outro filme. Viúva Negra se aproxima de Hulk e reduz sua presença a conquistadora de Vingadores – já fez isso com outros -, o que é decepcionante. O inútil Gavião Arqueiro ganha uma família, em uma sequência expositiva terrível, com a também desnecessária participação de uma sumida figura.

O resultado é uma aventura que vislumbra demais o futuro, pouco se preocupando com o presente. Quando o faz, acerta longe do alvo, proporcionando piadas fora de hora e frases feitas preguiçosas.

Para uma megaprodução de equipe, A Era de Ultron falha além do desejável e preocupa pela qualidade no futuro da franquia. Dane-se Thanos, as Joias do Infinito e a Guerra Civil: essa não era a hora deles. O desejo de interconectar tudo e agradar os fãs também gera inconvenientes.

(Avengers: Age of Ultron, , 2015) Dirigido por Joss Whedon. Com: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Jeremy Reiner, James Spader, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Aaron Taylor-Johnson.

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Em Ritmo de Fuga

Derrapando pelo asfalto

Baby (Elgort) trabalha como motorista, com responsabilidade de gente grande. É jovem, mas está já há dez anos na carreira. Na hora do pagamento, um teatro mostra a igual divisão de lucros, mas não é bem assim. Momentos antes, ele também faz as vezes do estagiário que vai buscar café para os adultos, o que não é aleatório. No mundo do crime, ele tem o valor de um entregador de pizza.

Não se trata de ser chofer, como supõe Debora (James), o desinformado interesse romântico do garoto. Baby é piloto de fuga em assaltos à banco. Abusa de firulas para escapar da polícia. Ganha desconfiança dos parceiros, que nem sempre são os mesmos nos golpes. Precisa engolir seco, pois é uma espécie de refém do líder remoto, Doc (Spacey). Está devendo a este e, por isso, recebe uma fatia ínfima dos lucros. A espera à libertação ou ao clichê último serviço é aguardada.

O código moral é martelado com frequência. No terceiro ato, ignora-se o conceito para priorizar a ação. Curiosamente, Baby ainda não viu sangue e violência na condução, o que será um divisor de águas quando acontecer. Ele tem um trauma com isso, já que os pais morreram num acidente de carro enquanto ele estava no banco de trás. Consequentemente, ganhou de brinde um zumbido na audição, que o fará ouvir música em fones de ouvido, inclusive durante os golpes, para se distrair.

O elemento mais chamativo de Em Ritmo de Fuga, pela característica anteriormente citada, é a trilha sonora, que acompanha particularmente o personagem e vaza para as cenas, costuradas perfeitamente em um eficiente trabalho de edição. Ela, muitas vezes, evoca a outras épocas, assim como equipamentos (um celular flip) e carros (um roxo quadrado, roubado de uma senhora). Em que década se passa o filme, realmente? 2000 ou 2010 por causa do iPod, provavelmente, mas isso não é importante.

A apresentação do protagonista, às vezes, é repetida, mas o principal não falta. Debora é funcional, o que explica ela embarcar no perigo sem questionar, enquanto os companheiros de crime poderiam ser mais que caras maus, embora a tensão por olhares antes do crime decisivo seja notável. A inversão de expectativa de quem vai atrás do rapaz e quem o ajuda quando precisa também merece ser lembrada.

Em Ritmo de Fuga se sai bem apresentando algo a mais, dentro da convencionalidade da narrativa. Arrisca um número musical na primeira busca de estagiário por café e olha sempre por fora, dentro do carro, nos assaltos, porque, desta vez, o mais importante ocorre nas ruas e no galpão abandonado, onde os criminosos mais poderosos planejarão novos golpes.

(Baby Driver,  , 2017) Dirigido por Edgar Wright. Com: Ansel Elgort, Jon Bernthal, Jon Hamm, Eiza González, Lily James, Kevin Spacey, Jamie Foxx.

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A Tartaruga Vermelha

Força da natureza

Um homem é trazido pelo mar a uma ilha deserta, sabe se lá como. O local tem areia, uma área interior de bambus e um pântano central com água doce. Animais pequenos e inofensivos surgem eventualmente, como os divertidos caranguejos. O maior perigo está no relevo: a parte rochosa e levemente acidentada em outro extremo possui uma queda onde a vítima ficará boiando em um lago coberto de difícil fuga.

Sem diálogos ou história complexa, A Tartaruga Vermelha impressiona, sob desenho tradicional, na reprodução de ambientes. O espectador pode viajar na descoberta de mais detalhes do local, que transmite a desolação pela falta de civilização e solidão, mas acolhe em áreas menos expostas, como a dos bambus, e nos sons da natureza.

O náufrago constrói uma embarcação rudimentar para ir embora. Pouco tempo no mar depois, uma força desconhecida destrói o veículo. Ele retorna e tenta de novo. Posteriormente, a causa do impedimento é relevada e, curiosamente, criará uma circunstância para que o homem passe sua vida no pedaço de terra. Dependendo do ponto de vista, pode ser uma prisão ou uma libertação.

Nos primeiros dias, o homem vê alucinações, como três músicos à beira do mar. Pode-se dizer que a animação é a concretização de uma delas, para aceitar a transformação da tartaruga vermelha, grande pedra no caminho do forasteiro. O desfecho dessa jornada completa um ciclo para ele, e as coisas voltam à normalidade anterior.

Traços de civilização eventualmente são encontrados, como uma garrafa de vidro, cujo som da entrada e saída da rolha encanta um personagem que nunca viu algo parecido. O filme, no entanto, parece renegá-la a maior parte do tempo. Os humanos contentam-se em deitar na areia, usando o braço como apoio, do início ao fim. Bambus são subutilizados na fabricação de uma casa: eles servem apenas no começo, ao barco e à uma temporária cobertura contra o sol. O desapego explica a despreparação a um imprevisto de consequências catastróficas – que mantém vivo quem interessa. No final, depois de décadas na ilha, uma dancinha acontece para emocionar, mas é incongruente à situação proposta.

Misto de fantasia com história familiar, a segunda sensibiliza de maneira convencional, com fases da vida aplicada ao contexto selvagem. Mesmo assim, é surpreendente como se consegue construir com tão poucos elementos. Os desafios são escassos e, quando aparecem, modificam perspectivas.

A Tartaruga Vermelha mostra que, até no isolamento, planos são traçados. Mesmo que eles sejam feitos por outrem, alheios a nossa vontade – pelo menos inicialmente.

(La tortue rouge,     , 2016) Dirigido por Michael Dudok de Wit.

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Minha Vida de Abobrinha

Massinhas desamparadas

Icare é um menino de cabelo azul que acabou de ficar órfão. A mãe, alcoólatra, morreu em um acidente infeliz nas escadas de casa. Era a familiar remanescente. Ele ganhou dela um apelido, Abobrinha, que fará questão de ser usado sempre.

A vida, agora, será no orfanato. O ambiente é acolhedor, mas há o bullying de Simon, que também tem seus problemas. Logo, a roda passa a girar, e tanto essa relação quanto o protagonismo de Abobrinha ficam em segundo plano: Camille torna-se a novata e vira paixonite do garoto.

O curto Minha Vida de Abobrinha trata de muitos acontecimentos, mas a carência por referências de amor está sempre em jogo. Às vezes, as crianças se distraem com a rotina do orfanato, mas logo a realidade volta a bater em suas caras.

Tanto quanto os personagens, o estilo da animação chama a atenção: de alguém que pisca devagar, com a maior calma do mundo, ao contorno dos olhos, especialmente de Abobrinha, feitos de lápis de cor. Há ainda o fetiche por narizes e orelhas vermelhas. Para completar, o piso do jardim do orfanato é irregular, lembrando a superfície de um quadro com grossas pinceladas de tinta.

Excetuando a mesquinharia da tia de Camille, os adultos do filme são exemplares. O policial que cuidou da transferência de Icare, por exemplo, se afeiçoou ao menino e faz visitas regulares, de maneira totalmente desinteressada. A diretora do abrigo, por sua vez, procura resolver os conflitos sem fechar os olhos para os sentimentos das crianças.

A foto de recordação e um final feliz, mas nem tanto, encerram a história. A resolução de dois pelo preço de um, só para agradar alguém, sendo que o segundo elemento não passou tempo suficiente com benfeitor, talvez seja forçado, mas torna a situação agradável.

Para quem perdeu tudo, até que os órfãos ganharam muito, embora não seja o suficiente para seus corações partidos.

(Ma vie de Courgette,   , 2016) Dirigido por Claude Barras.

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