Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar

Documentos falsificados

A crise a partir das fraudes em créditos imobiliários, a partir de 2007, colocou em xeque a reputação de muitas instituições financeiras nos Estados Unidos. Contudo, o governo correu para socorrer os maiores nomes, enquanto os pequenos, as pessoas físicas e o resto do mundo sofriam as consequências.

Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar relata o caso do pequeno banco no bairro de Chinatown, em Nova York, criado para a comunidade sino-americana, depois de fraudes relativas ao fornecimento de crédito. Segundo a história, foi o único a ser julgado pelo suposto crime, enquanto a concorrência não chegou a ver nem a polícia bater em sua porta.

A defesa da inocência ao espectador se dá, inicialmente, espelhando contextos maiores, da importância do banco Abacus aos seus clientes e do preconceito que esse povo sofre na suposta Terra da Liberdade, que a colocou na posição de bode expiatório.

Algumas preparações na investigação são, de fato, exageradas, suprimindo direitos. As figuras de autoridade foram designadas somente a este caso, então se isentam na relação com outros casos. Mas o fato é que o filme toma partido demais dos acusados, manipulando sempre que pode.

Thomas Sung, fundador do Abacus, foi um empreendedor com senso de oportunidade, mas, ao contrário do que é sugestionado, não pratica filantropia. A relação com o protagonista de A Felicidade Não se Compra na parte dos negócios visa representar o sujeito como um ser bem-intencionado que teve um revés, vítima do sistema. Quando a câmera o capta cumprimentando clientes na rua, parece um político fazendo campanha.

A voz dada à Promotoria e até a jurados criam um falso ar de isenção. As sessões de julgamento são recriadas. Atores assumem a voz, enquanto que a imagem é apoiada em gravuras. Sung e suas filhas, que trabalham no banco em cargos importantes, são retratados com feições tristes, como vítimas de um funcionário mal-intencionado. Este existe, foi demitido após o incidente e agora é usado pela Promotoria, excessivamente firme, para que seja provada a responsabilidade além dele, isto é, dos superiores.

O filme entra no cotidiano dos Sung e expõe sua rotina com eficácia, da organização de documentos antes que fossem acusados, da rotina cansativa das sessões e da espera pelo veredicto, sem poder voltar ao posto de trabalho, pois poderiam ter documentos solicitados, entre outros. A parte interpessoal tem maior destaque na filha que trabalhava na Promotoria e retornou ao seio da família para defender o empreendimento, algo que nunca tinha feito. Há conflitos particulares pendentes possíveis de sentir, como a discussão em que a mesma personagem tenta propor soluções, mas é repetidamente interrompida pelas irmãs.

Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar poderia se encerrar após a sentença, mas prefere se estender desnecessariamente. Como drama jurídico-familiar tem seu valor, mas como análise de um contexto sócio-econômico maior, há títulos melhores para desenvolver os assuntos, que incluem a bolha imobiliária e a consequente Crise do Subprime.

O conflito do júri serve para expor que este não é um caso preto no branco. Até que ponto vai a responsabilidade dos gerentes, sabendo ou não das atividades de um funcionário desonesto? Quem está interessado na queda do Abacus? São questões que ficam no ar, em uma história falsamente conclusiva.

(Abacus: Small Enough to Jail, , 2016) Dirigido por Steve James.

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A Ganha-pão

Histórias de sobreviventes

Na fechada sociedade afegã, entre montanhas e aridez, as mulheres não têm vez. A beleza delas representa a tentação, então são obrigadas a usar burcas. Recomenda-se que não saiam de casa. A transgressão gera punição de homens armados ou simplesmente moralistas que podem surgir em qualquer esquina.

Em Cabul, uma família é prejudicada por esse sistema. O pai, que não possui parte de uma das pernas, precisa sustentar a casa, com três mulheres e uma criança. Quando um jovem do Talibã o provoca e recebe uma resposta atravessada, ele simplesmente é preso, sem esperança de reintegração. O grupo restante chega a passar fome quando Parvana, a mais jovem das mulheres, resolve cortar o cabelo e se passar por homem. Daí se justifica o título desta produção ocidental, falada em inglês.

O disfarce abre portas e cria uma falsa liberdade, que a menina explorará inocentemente. Encontra uma ex-colega de escola, que usa a mesma tática de mudança de gênero, e passa a planejar uma maneira de visitar e, talvez, libertar o pai. Enquanto isso, uma fábula é contada em pílulas por ela, sobre um garoto que precisa enfrentar um elefante e seus capangas, para recuperar as sementes roubadas que seu povo usará na próxima temporada de cultivo. Claro que essa história será uma metáfora para sua jornada.

A Ganha-pão traça um cenário de perigo antes da transformação, mesmo na rotina de pegar baldes de água no poço mais próximo. Desacompanhada de um homem, Parvana não poderia sair de casa. Como garoto, é reconhecida de longe pela já citada colega Shauzia. Estranhamente, o jovem talibã que causou a questão inicial some por algum tempo, para reaparece, mais tarde, em uma cena não tão aproveitada.

A história, miserável por essência, deposita um certo fascínio no esforço em ganhar o próprio dinheiro pelo trabalho realizado. Parvana e Shauzia são empreendedoras. Não é examinada a justeza das remunerações, mas pontua-se a fragilidade física delas, que não podem levantar objetos pesados com tanta eficiência quanto os homens. Mesmo assim, nada que uma adaptação não ajudasse, se o ambiente não fosse extremamente misógino.

A relação entre personagens, mesmo que curta, é o ponto alto. O silêncio respeitoso frente a um cliente, que pede para ter a carta lida, ou o entendimento com a mãe, antes de uma viagem a ser feita na hora menos oportuna, são exemplos que aquecem o coração.

A presença desse cliente é muito facilitadora. Repentinamente, Parvana revela o paradeiro do pai a ele, que lembra de ter um primo trabalhando no presídio. Que coincidência! Na chegada ao local, esse personagem aparece como se fosse carcereiro, no lugar do parente, executando ações que não poderia – um atalho inverossímil à trama principal.

Ao fundo, uma guerra está prestes a começar – talvez os Estados Unidos invadindo o país? –, mas a atenção é prioritária à família desamparada. O desfecho mostra que nem todas as soluções são libertadoras e deixa um problema recém-criado no meio do caminho, mas, de alguma forma, é otimista.

Pensando na variedade temática, A Ganha-pão é menos sofisticado que um Persépolis da vida, mas ainda tem seu valor. Entre perdas e proibições, o que vale é preservar, o máximo possível, a integridade dos entes mais próximos, com insistência e esperança, mesmo todos garantam pensem o contrário.

(The Breadwinner,    , 2017) Dirigido por Nora Twomey.

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O Touro Ferdinando

Fora de competição

Em um criadouro de touros, cujo caminho para glória é o animal escolhido se apresentar em uma arena, em Madri, a competição se faz presente desde a tenra idade. Nesse meio, o franzino filhote Ferdinand se encontra terrivelmente deslocado. Mesmo testemunhando a seleção do pai para a tourada, sua única preocupação é em sentir o perfume de flores. Até perceber que o ente nunca voltará e tomar um rumo na vida.

Touro Ferdinando é uma animação de idas e vindas. A ausência paterna é um catalisador para a fuga, mas logo isso é esquecido, pois o desgarrado é acolhido por pai e filha, donos de uma fazenda onde, convenientemente, se cultivam flores. Cenário perfeito, mas ele cresce – a passagem de tempo é estranha pois, paralelamente, a menina que o cuidava continua com o mesmo porte infantil -, se mete em uma confusão na cidade, é capturado e volta ao rancho original, onde agora tem atributos físicos para o destino comercial.

A abordagem evidente é de indivíduos que foram feitos para algo, mas planejam seguir um caminho diferente, contra as normas sociais. Enquanto filhote, Ferdinand é insignificante. Quando ganha músculos – apenas pela genética, pois na fazenda floreira ele mal faz exercícios – e se agiganta, é visto como “monstro” pelas pessoas de fora. Isto é, uma figura que causa medo e destruição. Um perfeito elefante na loja de cristais; e o filme não se intimida em realizar essa representação.

A passividade e unidimensionalidade do protagonista são grandes problemas. Suas expressões econômicas são ainda mais enfraquecidas na dublagem de John Cena, que não consegue exprimir variações de humor ao animal, com voz sempre tranquila. Ferdinand desperta reações positivas quando, por acaso, realiza ações altruístas a animais que antes queriam vê-lo pelas costas. Tudo da maneira mais otimista e ingênua possível.

Os coadjuvantes passam longe de ser memoráveis. Os alívios cômicos são genéricos (da ovelha louca ao porcos-espinho malandros) e os antagonistas nunca se tornam ameaça. Valiente é ultracompetitivo e buller desde o primeiro segundo de aparição, se limitando a repetir que derrotará Ferdinand e será o escolhido. Já o trio de cavalos é acessório, participando de um duelo de dança que desvia e nada colabora à trama principal.

O diretor brasileiro Carlos Saldanha não se segura e, assim como em Rio, faz sua sequência de “cartão postal”, desta vez na Espanha. Os bichos fogem de um grupo de humanos insignificantes, entram em veículos que não deveriam caber e se articulam com uma destreza impecável pelas ruas de Madri. Muitas concessões precisam ser feitas para aceitar a sequência.

Para uma história cuja realidade tem fins cruéis e criticada pela sociedade – a tourada -, O Touro Ferdinando consegue expor verdades (a sala de troféus e o abatedouro) sem abandonar o lúdico. Traça o destino do protagonista de maneira politicamente correta, mas costura ao de outros personagens com muita simplificação, como se certas figuras fossem abrir mão de tudo e outras tivessem recursos para a responsabilidade que irão assumir.

Com mais baixos do que altos, esta é uma animação difícil de se preocupar com os personagens ou situações. Sua leveza confunde-se com a baixa profundidade de narrativa. Assim como Ferdinand, parece forte e imponente, mas é inofensiva como uma planta.

(Ferdinand, , 2017) Dirigido por Carlos Saldanha.

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O Poderoso Chefinho

O centro das atenções

Tim é um menino de sete anos mimado regularmente pelos pais e dono de grande imaginação. As aventuras que participa cria universos visuais imaginários, em que ele pode ser um pirata ou filho de macacos. Quando ganha um irmãozinho, a realidade doméstica vem à tona, mas por pouco tempo. O bebê novato, que se veste de terno e gravata, fala e age como adulto quando ninguém está vendo. Parece perigoso e tem planos suspeitos, mas só a criança maior é testemunha e pode intervir.

A sugestão inicial é que a missão do forasteiro em O Poderoso Chefinho seja fruto da cabeça de Tim, mas logo é abandonada. Apesar do título nacional, o personagem principal é um executivo em busca de promoção, não um mafioso. Há apenas uma referência trivial ao trabalho de Francis Ford Copolla, assim como a outras obras cinematográficas, sem muita originalidade.

A crítica ao mundo corporativo é muito sutil. Sacrifica-se os entes e a vida em geral pelo trabalho, e a recompensa não é tão boa quanto o esperado. O indivíduo acredita ser parte de uma família, mas é tão descartável quanto os outros funcionários. Contudo, o enaltecimento do ofício é maior. Quando os irmãos começam a se entender, se tornam colegas de trabalho. Tim se sacrifica por uma corporação, a Baby Corp, para satisfazer o desejo de ser filho único. Mesmo os pais, na segunda metade, se tornam animais controlados, que deixam os filhos com uma babá desconhecida, para fazer uma viagem de negócios de última hora, considerada mais importante.

A transformação da realidade é abandonada quase por completo depois da chegada do Boss Baby, e volta no final, com maior vigor, pois Tim não participa mais sozinho das próprias histórias. A animação digital reveza, em curtos períodos, com outros tipos de representação, como a da tradicional 2D e uma por meio de um livro pop-up. Durante o duelo com irmãozinho, o único traço de fantasia se dá na relação com o despertador em forma de feiticeiro, que interage como se tivesse vida própria. Durante a visita em dupla a Baby Corp, dada a natureza da situação, a estética visual é turva, como se fosse uma cena feita para 3D, enxergada sem os óculos.

O roteiro é telegrafado desde que o Boss Baby releva os planos. A colaboração de Tim ao plano implica em uma aproximação afetuosa que se solidificará. O trecho final, da carta e do arrependimento, é a esticada de uma compreensão que o espectador já teve há muito tempo. Até o momento dessa descoberta, surgirá um vilão clichê movido à vingança, um capanga cartunesco e um deus ex-machina preguiçoso no aeroporto.

O protagonista se destaca pela dublagem de Alec Baldwin, que reproduz muito do que aprendeu como o executivo da série 30 Rock. O bebê é sarcástico e sagaz. Como uma figura de sua idade, sem tomar o leite especial que o torna racional e maduro, no entanto, é apenas o filho caçula de Os Incríveis sem os poderes. Enquanto Tim é uma figura decepcionantemente previsível, as crianças que formam a gangue do recém-nascido são meramente funcionais.

O Poderoso Chefinho possui uma premissa divertida, no que tange o bebê-executivo, mas vai perdendo seu encanto conforme as situações são repetidas por outras formas até o terceiro ato, quando se torna uma aventura genérica de salvamento e entendimento.

(The Boss Baby, , 2017) Dirigido por Tom McGrath.

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O Insulto

Afloramento de tensões

Um incidente no passado recente que criou cicatrizes eternas no país. Uma sociedade polarizada. Extremismos vindo de populares, influenciados por políticos e mídia, que se isentam de culpa na hora H. Parece o Brasil, mas é o Líbano.

Faz-se necessário um breve apanhado da história desse país do Oriente Médio, que O Insulto não entrega: o Líbano viveu uma guerra civil até 1990, quando os vizinhos e os palestinos sem pátria participaram em diferentes lados, gerando destruição e mortes. Na restruturação, a convivência entre povos não é harmoniosa, mas há alguma tentativa de inserção.

Um mutirão de reformas é realizado em um bairro de Beirute. Quando o cano fora das normas no apartamento do libanês Tony Hanna (Karam) é detectado, o mestre de obras palestino Yasser Salameh (El Basha) procura arrumá-lo, mas tem o serviço desfeito pelo morador, que é chamado de “babaca”. Este deseja um pedido de desculpas pessoalmente, mas quando a oportunidade é arranjada, solta um impropério xenofóbico ao funcionário, que lhe desfere um soco. Tony resolve processar Yasser, mas o caso ganha proporções maiores, recebendo atenção da imprensa e acirrando a hostilidade entre povos.

Os personagens principais se diferenciam muito entre si. O libanês reproduz o discurso intolerante que vê em políticos e na televisão. Já o palestino interioriza emoções, guardando para si a humilhação verbal sofrida. Mesmo que haja o atenuante da família em formação de Tony – ele tem uma esposa grávida -, a balança positiva pende ao forasteiro. No terço final, busca-se em uma revelação de passado. Compreensível, mas tardia.

Uma nova camada é adicionada com os advogados: o de acusação Wajdi Wehbe (Salameh) trabalha em um escritório pomposo, não tem escrúpulos e prioriza a autopromoção. A defensora Nadine (Bou Abboud) é modesta, menos experiente e defende os direitos humanos. A descoberta de um vínculo externo entre os dois não traz benefícios narrativos. A semelhança profissional, de fazer o que estiver ao alcance para defender seus clientes e causas, mesmo que antiética, é digna de nota.

A bola de neve formada pela ingratidão da minirreforma traz consequência às duas partes, embora a demissão de Yasser seja deixada de lado. O terceiro ato inverte situações, descobrindo reações diferentes. O episódio do carro tem serventia, mas a simples existência de um simples cabo solto torna-o incabível. Já na visita inesperada, se houvesse coragem, o filme poderia terminar ali. O veredito no tribunal é apenas uma redundância.

A partir de um conflito simples, que ocorre pelo ódio ao estrangeiro, O Insulto mira alvos maiores. A força está nas más influências, situadas perifericamente, que ajudam a manter as coisas como estão, e nos dramas particulares, que contextualizam as ações.

Tanto os juízes quanto o chefe de Yasser são mediadores pacientes, que fornecem alguma esperança ao panorama. Mas é um trabalho de formiga, que precisa ser insistente e em grande número. Haja determinação.

(L’insulte,       , 2017) Dirigido por Ziad Doueiri. Com: Adel Karam, Kamel El Basha, Camille Salameh, Diamand Bou Abboud, Rita Hayek.

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