Me Chame Pelo Seu Nome

Enquanto há calor

Uma família judaico-americana reside no norte da Itália, rodeada de livros, história música, é composta por intelectuais. Na casa de campo, conta com um pomar, passeios de bicicleta, rios e caminhos secretos. As refeições, no jardim, são uma terapia.

Anualmente, o patriarca (Stuhlbarg) recebe um estudante, que o ajuda em pesquisas arqueológicas. O escolhido da vez é Oliver (Hammer), um jovem adulto bonito e independente, que fica num quarto ao lado de Elio, o filho do anfitrião, em uma construção de espaço que permite o compartilhamento de intimidades.

A personalidade do forasteiro conquista o adolescente, não sem antes sentir certa indignação. A relação é construída com muita calma e comunicação não verbal. De repente, Elio está perguntando sobre o paradeiro de Oliver para todos que encontra. A cena em que o cobiça visual e unilateralmente em uma festa, enquanto o outro dança com uma garota, é crucial. Os diálogos mais diretos e a aproximação física, contudo, ainda demoram a acontecer.

Oliver é um sujeito que aproveita a vida em doses rápidas, como nos alimentos que degusta. Pode enrolar o garoto por algum tempo, mas parece que o quer louco de desejo, subindo pelas paredes. O adiamento do clímax faz com que Elio procure outros caminhos de prazer. As investidas na vizinha carecem de nuances, sugerindo uma relação sem firmamento.

Quando a junção que interessa com ocorre, a represa de sentimentos é liberada. Oliver parece se divertir com a penúria do companheiro, e coloca freio algumas vezes, a fim de ver o resultado. Algumas práticas sexuais são relativamente ousadas, compensando a nudez econômica.

Decorrida nos anos 1990, a história assinala a autocensura do casal quando não está sozinho. Gestos e diálogos com segundas intenções em público, com exceção das massagens, são praticamente subtraídos. Mesmo assim, a família americana – os pais – é liberal e aberta à conversação, o que constitui, além do conforto financeiro, outro privilégio.

Retratando um amor de verão, o roteiro até faz rápida troça quando Elio se adianta à novidade que recebe por telefonema do flerte. Os últimos minutos derrapam na tentativa de encerrar situações secundárias e explicitar percepções alheias já marcadas, embora a segunda brinde o espectador com uma sincera reflexão do personagem de Michael Stuhlbarg.

Em um amplo espaço de ruínas históricas e vegetação, o relacionamento de Me Chame Por Seu Nome segue os trilhos da natureza, sem julgamentos, e olha a um futuro onde o desejo é do amor livre e despreocupado.

O ato de sentir e o tempo são muito valorizados. O arrependimento por chances perdidas, incluindo o atraso na exposição de sentimentos, ficará na mente dos personagens. Ainda assim, melhor do que nunca terem arriscado.

(Call Me By Your Name,     , 2017) Dirigido por Luca Guadagnino. Com: Timothéé Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel.

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A Forma da Água

Fábula dos vulneráveis

Elisa Esposito (Hawkins) é uma faxineira muda com vida simples, porém alegre. Ela é boa ouvinte da colega Zelda (Spencer), assiste a programas de TV com o vizinho Giles (Jenkins) e se masturba depois que acorda, dentro da banheira. Sofre preconceitos por sua condição e reage com parcimônia aos superiores, que bancam os medíocres.

No centro de pesquisa do exército norte-americano, onde Elisa trabalha, um homem-anfíbio é trazido para sofrer experiências. Não demora muito para ela encontrá-lo e construir uma relação não-verbal, que derivará à romântica/sexual. São dois seres marginalizados, que percorrerão um caminho difícil, no qual a criatura, após decepar dois dedos do chefe de segurança Richard (Shannon), terá a morte programada.

Vale observar que a maior parte dos personagens possui algum tipo de fraqueza, inclusive o vilão. A diferença é como cada um lida com o atributo. O ferimento permanente, por exemplo, soa como castração, que Richard disfarçará comprando um carro ou sendo violento com a esposa, na cama. Metafórica e literalmente, está apodrecendo, o que torna suas atitudes mais críticas.

O contato inicial entre raças se dá por um ovo, símbolo da fecundação que, como alimento, será apenas isto, já que certamente o casal não poderá gerar um descendente. É bem-vinda, aliás, a temática sexual. Elisa já ultrapassou a barreira de autoconhecimento do corpo, faltando a recepção do toque alheio. Já o Homem-Anfíbio é educado e higiênico no uso da genitália, no mecanismo de revelá-lo na hora certa, antes do coito; mais do que os humanos do sexo masculino para urinar, o que é percebido pelas faxineiras ao limpar o banheiro da firma.

Passado mais ou menos nos anos 1950, A Forma da Água procura lidar rapidamente com os maus de sua época, do racismo ao machismo, passando pela Guerra Fria e o American Way of Life. Esse lado fornece pano de fundo a coadjuvantes, para que tenham independência ou algo extra a falar, embora acabe esticando o geral mais do que deveria, como no arco do cientista Robert (Stuhlbarg), dividido entre a amor à pátria (é um soviético infiltrado) e à profissão, cujas ameaças entregam um desfecho decepcionante.

O elenco realiza o que se espera dele, com destaque à atuação física de Sally Hawkins, sem poder falar, e Doug Jones, frequente colaborador do diretor Guillermo del Toro, que precisa de horas na maquiagem antes de interpretar o papel.

O roteiro não é excepcional, mas conta com cenas de devaneio e fantasia satisfatórios, especialmente em cenários que são preenchidos com água em vez de ar. O mundo da criatura desconhecida realmente é adaptado aos espaços de convivência humanos.

Capturado ou livre, comunicativo ou não, o Homem Anfíbio deixa marcas por onde passa, presenteando com o inesperado, no caso do vizinho desfavorecido, mas ignorando a principal peculiaridade de Elisa. Definitivamente, a mudez não é vista como falha, já que faz parte da personagem desde o nascimento. Com o poder das palavras faladas, a empatia entre os dois não se desenvolveria de forma tão orgânica.

(The Shape of Water, , 2017) Dirigido por Guillermo del Toro. Com: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones.

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Thor: Ragnarok

Guardião do trovão

Os filmes de Thor nunca foram grande coisa. Pensando nisso, a Marvel seguiu por um caminho diferente no terceiro filme de sua trilogia que, como as de Homem de Ferro e Capitão América, representam algum tipo de conclusão. A comédia, a direção de arte com cores vivas e a trilha sonora dos anos 1980 se sobressaem. Mesmo assim, Thor: Ragnarok parece mais uma continuação de Guardiões da Galáxia sem Peter Quill e companhia.

Os primeiros vinte minutos são imprestáveis. Thor está lutando contra o demônio Surtur, em uma cena que alterna a metralhadora de piadas com um jogral ridículo. O espectador é informado superficialmente do que é o Ragnarok, uma espécie de apocalipse em Asgard, mas fica na dúvida como ele aconteceria depois da queda do inimigo, que garante a inevitabilidade da profecia. A seguir, surge um easter egg esticado de outro filme, que apenas agiliza deslocamentos. Finalmente, na Noruega, Odin (Hopkins) está exilado e pessimista com o futuro. Extingue-se na frente de Thor (Hemsworth) e Loki (Hiddleston), mas depois fará convenientes aparições ao primeiro para motivá-lo. Sua desistência de quase tudo, mesmo assim, é questionável.

A família real de Asgard não para de crescer. Hela (Blanchett), a terceira filha de Odin, banida no passado, reaparece para reconquistar a terra natal. Muito poderosa, manda os irmãos universo afora e pisa no lar desacreditada, precisando provar-se por assassinatos. Conhecida como “Deusa da Morte”, é uma decepção, pois seus golpes se resumem a um corpo a corpo mais rápido – só a destruição fácil do martelo de Thor é que impõe alguma autoridade. Ela revela um passado de graves escolhas de Odin, o que a leveza do filme impede a reflexão.

Enquanto isso, Thor cai planeta-lixão de Sakaar e vira mercadoria. Vendido por Valquíria (Thompson) ao Grã-Mestre (Goldblum), será feito gladiador, a fim de alegrar as massas. As melhores cenas na localidade estão no trailer, especialmente no que tem a ver com o Hulk (Ruffalo), em participação especial. Inicialmente impotente, o Deus do Trovão supera obstáculos com alguma facilidade. Trata-se de um grande atraso, para Hela adiantar não se sabe o que em Asgard. Entre os cenários coloridos, os últimos antes da saída, todos verdes, parecem incompletos, para chroma key.

A maioria das participações é acessória. No retorno à Asgard, Thor precisava de um piloto, pois do resto cuidaria sozinho. Para disfarçar, são criadas ameaças secundárias para heróis secundários, gerando cenas esquecíveis. Valquíria tem a trajetória melhor construída, mas no ápice se limita a caras e bocas, além de armas terráqueas contra criaturas alienígenas. Hulk lida superficialmente com os dramas internos, o que parece suficiente para um estúdio que não deseja realizar outro filme solo dele, enquanto que Heimdall (Elba) é o único rosto conhecido para liderar a resistência de seu povo, enquanto os outros não aparecem.

Do outro lado, o guerreiro Skurge (Urban) assume a portaria da Bifrost durante o governo Loki, e depois de alia a Hela. De presença totalmente utilitária, sua última decisão não gera sentimentos. O resto dos inimigos, tirando Hela, são feitos de computação gráfica perceptível, sendo um problema recorrente nos filmes da Marvel.

Abrindo e fechando com Immigrant Song, do Led Zeppelin, Thor: Ragnarok quer ser lembrado a todo custo, mas é provável que apenas a canção fique na cabeça. Diversão passageira e fora da curva, carece de intensidade na história de um herói que perde muitas coisas importantes, mas não se importa tanto.

(Thor: Ragnarok, , 2017) Dirigido por Taika Waititi. Com: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch.

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Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Estágio dispersivo

Homem-Aranha está de volta para o terceiro reboot em quinze anos, desta vez com um adolescente no papel, no drama escolar mais convincente de Peter Parker. Já introduzido no Universo Cinematográfico Marvel em Capitão América 2: Guerra Civil e com origem elipsada, já bem conhecida, seu filme solo começa diferente: não com uma missão aleatória do herói, mas contemplando rapidamente a gênese do vilão, Adrian Toomes / Abutre (Keaton). Na sequência, uma recapitulação expandida da ação no aeroporto de Berlim, sob o ponto de vista do teioso.

Depois da viagem, Peter (Holland) retorna à rotina no Queens, em Nova York, esperando ansiosamente por uma nova aventura. Rejeita atividades extracurriculares na escola e inventa que está fazendo um estágio para Tony Stark (Downey Jr.), tentando ganhar pontos de popularidade. À tarde, veste o uniforme do herói e realiza ajudas protocolares no bairro, como orientar um transeunte ou ajudar uma velhinha. Não está descontente com a situação nem com as esnobadas do “patrão”, que muitas vezes terceiriza o contato ao segurança Happy (Favreau).

Adrian Toomes tem um motivo justificável para tornar-se criminoso, o que não se faz torcer por sua total ruína. Uma revelação no terceiro ato potencializa esse sentimento, mas ele é um sujeito pacato, que sempre agiu nas sombras. Azar ter encontrado um garoto tentando se provar para o mundo.

A trama na escola possui estereótipos; alguns, subvertidos. Liz (Harrier), a garota mais popular, não é tão inacessível quanto parece, e faz parte do grupo de nerds. O melhor amigo, Ned (Batalon), é fascinado com tudo e até irritante. Flash (Revolori), o buller étnico, é descartável, tamanha a desimportância que recebe. Michelle (Zendaya), por sua vez, é a figura interessante, aparecendo em momentos aleatórios com tiradas espirituosas, compreendendo as pessoas ao redor, apesar de fingir o contrário.

Os trailers adiantavam quase todo o filme, mas o caminho ao amadurecimento já é bastante óbvio. Peter não chega a trabalhar diretamente com Stark, mas ganha mimos. Durante boa parte da história, é conhecido como “Homem-Aranha do YouTube”. Mete-se em aventuras maiores que pode suportar, como era a de Guerra Civil. O duelo contra Abutre, visto em perspectiva, talvez não seja da mesma natureza; tanto que a polícia é mandada para detê-lo, e não algum Vingador.

Embora não possua cenas memoráveis, Homem-Aranha: De Volta ao Lar contém a essência do herói, lidando com problemas cotidianos de um adolescente e, ao mesmo tempo, o combate ao crime. Com tantos concorrentes mais poderosos salvando o mundo, ele pode se dedicar ao bairro e ser uma figura low profile, por mais que haja o desejo de crescer. É uma situação singular, na qual as outras versões do personagem não passaram.

Perdendo frequentemente a mochila, deixando o celular tocar nos piores momentos ou explorando as desconhecidas funções do uniforme tecnológico, este jovem Homem-Aranha ainda tem muito a ser explorado.

(Spider-Man: Homecoming, , 2017) Dirigido por Jon Watts. Com: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori.

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Guardiões da Galáxia Vol. 2

De volta às origens

Em uma festa de família, sempre há aquele membro que mal aparece ou só se ouve falar. Depois de estabelecido o grupo principal, é hora de integrar as outras pessoas, algumas já até surgidas anteriormente, em Guardiões da Galáxia Vol. 2.

Um serviço mal finalizado acaba colocando os contratantes na cola dos Guardiões. Os Soberanos, figuras arrogantes de pele dourada, liderados por Ayesha (Debicki), atacam por naves remotas. Os heróis conseguem escapar ao serem salvos por Ego (Russell), que se diz pai de Peter Quill (Pratt) e tem um planeta, para onde metade do grupo se dirige, enquanto a nave é consertada por Rocket onde ela caiu, acompanhado de um jovem Groot e da prisioneira Nebula (Gillian).

A visita ao planeta do pai é um grande respiro até ser revelada sua natureza. Lá conhecem Mantis (Klementieff), que ajuda o chefe a dormir. Ela se dá muito bem com Drax (Bautista); juntos, formam um alívio cômico. Quill ainda tenta se aproximar de Gamora (Saldana), enquanto se empolga com Ego e descobre a própria ascendência – ele é um Deus, o que permitiu segurar em uma Joia do Infinito sem morrer, no primeiro filme.

Recheado de easter eggs do próprio meio, sem tocar diretamente na saga dos heróis da Marvel na Terra, Guardiões da Galáxia Vol. 2 é bastante excessivo, seja na rápida participação do grupo original dos quadrinhos – liderados por Stakar Ogord (Stallone) – ou na insistência com os Soberanos, que poderiam ser facilmente limados da trama, mas colaboram para uma introdução futura, contida em uma das inúmeras cenas pós-créditos.

Dos dramas pessoais, talvez a motivação por trás de Yondu (Rooker) não eliminar Quill, desde sempre, seja o mais forte. Há o conhecimento de porque ele raptou o protagonista da Terra e não entregou ao pai, enquanto sofre um motim da própria equipe, que não aguenta mais a não captura do terráqueo. A relação de Quill com Ego tem uma cena em que os dois brincam com uma bola de energia, como se fosse de beisebol, muito eficaz para estabelecer a conciliação entre pai e filho. A argumentação sobre a falta de propósitos de um Deus, que estava os buscando incessantemente, é interessante até ser encontrada uma resposta. Já o duelo entre Nebula e Gamora, filhas de Thanos, cria uma distração para a segunda personagem e integra a primeira tortamente à equipe; a resolução do conflito, que implicaria na morte de uma das duas, é fraca e conveniente ao que se espera no futuro, pois ambas serão necessárias para encarar o vilão mais poderoso da Marvel, até aqui, sempre aparecendo nas beiradas.

O humor passa pelas risadas exageradas de Drax, que funcionam terrivelmente. Até a piada sobre o apelido do líder do motim é satisfatória, embora sua continuação, buscando a reação de Ayesha, sempre séria, seja excedente.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 dá prosseguimento ao que tinha construído e apresenta novos personagens. Mas, por mais que os perigos sejam consideráveis, das naves soberanas ao planeta vivo, os personagens sempre são salvos na hora H. O senso de destruição é mínimo, e o espectador não poderia se importar menos com o efeito colateral ocorrido na Terra.

A galáxia pode ser facilmente protegida por esses heróis, cuja a nave, caindo aos pedaços, ainda consegue manter vivos seus ocupantes, adentrando a atmosfera ou se chocando violentamente contra muitos galhos de árvores. Talvez a antagonização de Thanos – ou de Adam Warlock – e os poderes recém-descobertos de Quill tragam à franquia aquilo que falta.

(Guardians of the Galaxy Vol. 2,     , 2017) Dirigido por James Gunn. Com: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki.

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