Guardiões da Galáxia

Dança espacial

Com restrições, a vida fora da Terra foi conhecida no Universo Cinematográfico da Marvel nos filmes de Thor e tudo relacionado a Thanos. No primeiro, havia muita guerra entre povos, enquanto que no outro, desejo de poder. Mostrando outros cantos interestelares em Guardiões da Galáxia, com muitos seres com tamanhos e cor de pele diferentes, a impressão é de um relativo respeito às diferenças.

O planeta Xandar assina um tratado de paz com a raça Kree, mas Ronan (Pace), dissidente desta, quer atacar, desejando purificação do oponente, algo que certamente já foi visto na série de filmes da Casa das Ideias. Subordinado a Thanos, precisa recuperar um orbe, que revelará algo oculto e importante.

O caçador de recompensas Peter Quill (Pratt) acaba capturando o objeto antes. No caminho para encontrar um vendedor, topa com personagens ameaçadores: Gamora (Saldana), o guaxinim falante Rocket (Cooper), a árvore andante Groot (Diesel) e, mais tarde, o forte Drax (Bautista). Causando destruição em Xandar, eles vão para um presídio de segurança máxima. Lá, começam a se unir para o grupo que, depois, tentará impedir Ronan, aliado à surpresa dentro do orbe, de destruir o planeta que queria conciliação.

O processo de aproximação dos personagens principais é totalmente orgânico. Cada um possui uma trajetória e têm importância equilibrada. O único incômodo é o plano de vingança de Drax: ninguém liga à cena em que ele finalmente encontra o assassino de sua família, pois seus companheiros estão em outra missão, mais urgente.

Os cinco são mais ou menos solitários e problemáticos com seus criadores/familiares (à exceção de Groot, que é simplesmente aquilo). Quill ganha uma atenção ligeiramente maior, visto que o filme começa com sua infância na Terra. A música dos anos 1980 serve não só para compor a trilha mas para contar sua história, que passa pelo K7 de seu valioso toca-fitas. Depois de sair do planeta natal, passou vinte anos sob a tutela de Yondu (Rooker), que agora o caça pela posse do orbe. A cronologia dessa relação é oculta e incômoda, já que não dá para acreditar que o terráqueo ficou tanto tempo com o outro personagem.

O clímax, na atmosfera de um planeta, lembra um dos Star Trek da nova geração. Existem ainda muitas referências a Star Wars. Adicionando a seleção musical de uma década de grandes hits, gera-se um lugar seguro, em uma relação perigosamente emocional com o espectador.

O humor, sempre presente na Marvel das telonas, parece menos forçado, mas extensivo. Cria-se um contraste interessante entre os heróis piadistas e o resto, sério por definição. A inserção fora de hora não existe, pois qualquer hora é aceitável, mesmo na dança de Quill, desenhada anteriormente na trama.

Guardiões da Galáxia não é o melhor filme de seu ano, mas é eficiente. Arrisca-se com personagens desconhecidos e cria uma ponte mais consistente entre passado e futuro da série, dando mais algum tempo a Thanos, que não se mete diretamente na história, mas não se limita, desta vez, a uma cena pós-créditos.

(Guardians of the Galaxy,   , 2014) Dirigido por James Gunn. Com: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, John C. Reilly, Glenn Close.

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Capitão América 2: O Soldado Invernal

Tecnologia subversiva

Steve Rogers (Evans) pode não ter tido tempo ainda de entender os tempos atuais. Depois que foi resgatado no gelo por Nick Fury (Jackson), já entrou na batalha de Nova York, em Os Vingadores. Sua personalidade contestadora, no entanto, se adaptou rapidamente.

A partir do segundo filme, o herói passa a dividir espaço com outros elementos, talvez tendo sua importância diminuída. Recebeu o pomposo (sub)título de O Primeiro Vingador, e agora é a vez do antagonista; depois, será um acontecimento (Guerra Civil), que mais poderia ser outro filme dos Vingadores, e não solo.

Na nova aventura, o aeroporta-aviões, menina dos olhos da S.H.I.E.L.D., é multiplicado, fortemente armado e equipado de uma nova tecnologia que detecta ameaças antes de aparecer. O herói do passado discorda prontamente da utilidade dela aos superiores. Quando a agência é tomada por traidores, que na verdade sempre estiveram lá esperando a oportunidade certa, o projeto vê caminho livre para fins particulares. A humanidade está em perigo.

A Marvel sempre teve o problema de criar urgência a fins de mundo, mesmo com baixas, mostradas à distância, e destruição. Em O Soldado Invernal não é diferente. Questiona-se a inércia de outros Vingadores a um problema tão grave. A salvação se resume ao Capitão, Viúva Negra (eterna coadjuvante) e o estreante Falcão (Mackie), com equipamento interessante, mas não tão invencível quanto os outros.

Depois de um incidente impactante, Rogers se encontra com Alexander Pierce (Redford), um dos cabeças da agência, e logo é classificado como ameaça. Consegue fugir, encontra aliados, ferramentas e espera uma chance para atacar. Enquanto isso, descobre informações relacionadas ao passado e conhece o Soldado Invernal, ciborgue tão forte quanto ele.

Em dois terços do filme, o vilão é visto apenas como oponente a derrubar. O espaço para outra descoberta e um dilema ao Capitão América, que estava entediado por não saber o que gostar nos dias atuais, vem apenas no final, quando a ação também precisa se fazer presente, atrapalhando o drama.

Há lutas, perseguições e explosões desde o início. Viúva Negra se encaixa bem nelas. Nas conversas com o protagonista, incomoda suas interrupções para lembrar de mulheres com quem o herói possa sair. Mas o interesse maior é criar um flerte entre os dois, que nunca avança. A espiã russa ganha, pelo menos, um toque de profundidade ao hesitar em realizar determinado ato, que pode comprometer a si própria.

O plano da organização Hidra, verdadeiro antagonista do filme, é mais um de dominação de mundo, mas paciente, detalhado e planejado. Causa um estrago gigantesco ao Universo Marvel, vislumbrando novos horizontes, envolvendo não só a exposição de super-heróis, agentes e civis, mas modificando a relação com governos que, ironicamente, possuía um infiltrado inimigo.

O enfraquecimento publicitário do herói como figura solitária mostra que, na verdade, ele é ótimo trabalhando em equipe e, principalmente, liderando-a. Pode ter saído sozinho do prédio da S.H.I.E.L.D., mas só conquistando corações e mentes para retornar à instituição e neutralizar uma ameaça infinitamente mais intimidadora que seus músculos.

(Captain America: The Winter Soldier, , 2014) Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo. Com: Chris Evans, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, Robert Redford, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Cobie Smulders.

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Thor: O Mundo Sombrio

O hospedeiro imaterial

O Deus do Trovão ganhou mais dinheiro. A cidadezinha cenográfica no Novo México ficou para trás. Asgard ganhou mais espaço, o que significa mais trabalho para de computação gráfica. A Terra, tirando a cena em um depósito genérico, tem palcos mais robustos para receber a ação. Há espaço até para naves espaciais. Grandiosidade é o que não falta na continuação de Thor.

Loki (Hiddleston) foi preso pelas armações em Os Vingadores, mas o próximo perigo já está à espreita. Trata-se dos Elfos Negros, liderados por Malekith (Eccleston), derrotados pelo pai de Odin (Hopkins), que voltaram para reaver o Éter, substância que os tornará mais fortes durante o alinhamento de mundos, incluindo a Terra, que se dá no período do filme. Objetivo: retomar a escuridão, e só.

O elo mais fraco da saga retorna, até porque, é a ponta a preencher da história original: Jane Foster (Portman) está em Londres e, por uma coincidência terrível, encontra um portal para outros mundos. Durante o processo, o Éter acaba usando seu corpo como hospedeiro, o que a faz ser alvo de Malekith. Thor a reencontra, leva a Asgard, e a cidade passa a correr perigo. Justificativa para invasão repentina, destruição, morte e a libertação condicional de Loki, que conhece um caminho alternativo para sair de lá, em um plano, junto com os mocinhos, a fim de enfrentar os elfos.

O núcleo terráqueo é muito descartável. Erik (Skarsgård), Darcy (Dennings) e o novo estagiário são designados ao alívio cômico, em piadas fora de hora. Na hora H, uma carta na manga surge para deter Malekith. Jane encontra relativa resistência dos asgardianos em aceitá-la como par de Thor. Rascunha-se, em certo momento, rixa com Lady Sif (Alexander), passando por rápida troca de olhares. Felizmente, a inconveniência é deixada de lado.

O Thor trovador recebe menos atenção, enquanto o guerreiro, domina a tela. Sua maquiagem melhora: os pelos faciais loiros de 2011 pareciam artificiais. Se sua preocupação em salvar a todos, passando por cima de ordens superiores, é digna de nota, o mesmo não se pode dizer do apego a Jane, acessório. Loki continua sendo a melhor coisa, embora suas intenções não sejam totalmente ocultas. Seu desfecho é promissor.

Misturando fantasia medieval com espacial, Thor: O Mundo Sombrio ainda carece de força. Os novos conflitos dentro de Asgard, como a adição de Jane ou a exclusão de determinado personagem que nunca foi bem desenvolvido servem mais para o que virá depois do que pelos fatos em si. Para piorar, a vilania, que teve duas gerações para se preparar e pensar o que quer da vida, ficou mais dormindo e babando de ódio do que qualquer outra coisa.

A confiança, traduzida em investimento, foi alta, mas não foi dessa vez ainda que este herói entregou uma boa história isolada.

(Thor: The Dark World, , 2013) Dirigido por Alan Taylor. Com: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Christopher Eccleston, Jaimie Alexander, Idris Elba, Rene Russo, Kat Dennings, Stellan Skarsgård.

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Homem de Ferro 3

Entre escombros

Não faz muito tempo que Tony Stark deixou de ser uma figura completamente egoísta. Anteriormente, destratava ou ignorava indivíduos, que invariavelmente voltavam para dar o troco. Há histórias de sobra, há repetição. A ameaça em Homem de Ferro 3 é diferente em alguns aspectos.

Dirigido por Shane Black, o filme começa preguiçoso, com um flashback em que um esquisito cientista é enganado, enquanto uma pesquisadora vai para cama com o futuro super-herói. Nos dias atuais, Stark está trabalhando muito em suas armaduras e enfrenta crises de ansiedade, decorrentes da batalha de Nova York, vista em Os Vingadores. O quadro de doença surge em momentos convenientes, e o personagem já tem relativo controle, embora sofra com as oscilações. Um conflito adicional, que serve mais como ligação à superprodução de 2012.

A ideia é fechar um ciclo do personagem. Para isso, ele precisa ir até o fundo do poço, embora a decadência seja questionável. Stark tem a mansão destruída após uma atitude carecida de esperteza – provoca o vilão pedindo que o visite. Escapa com vida, mas para no meio do nada, com a armadura quebrada. Com a ajuda de um garoto, faz uma lista de compras e encarna o MacGyver. Ainda terá as vezes de detetive, pois sem a proteção, precisará como um ser humano comum, embora muito inteligente.

O vilão destacado é o Mandarim (Kingsley), que grava vídeos, invade redes de televisão e chantageia governos. Sua caracterização, conhecida por completo no final, é incomum e bem-vinda. Mas há outros antagonistas. O excesso deles incha a história incomodamente. Os contratempos podem surgir a qualquer momento, terminando por banalizar o poder tecnológico e fazer com que qualquer um, mesmo despreparado, a use. Há ainda uma conspiração política, sufocada no meio de tanto assunto.

A solução à verdadeira ameaça se dá pela quantidade, e confirma a falsa urgência da situação-limite no Tennessee, o meio do nada. A franquia já havia usado múltiplos robôs no filme anterior, com Ivan Vanko (Rourke), durante o clímax muito rápido. Na nova situação, o duelo final é descentralizado e possui minutos a perder de vista.

A tecnologia inimiga da vez é mais promissora que chicotes elétricos ou a atualização de protótipo alheio. O uso dela em um personagem periférico é apenas funcional, voltando à questão da banalização, em que qualquer um pode ser o que quiser, sem haver grandes consequências.

O segurança Happy poderia ter nenhuma participação (depois da oportunidade em que tenta fazer piadas, fica de molho), enquanto Máquina de Guerra/Patriota de Ferro, o contrário. Decepcionante também como uma atriz do calibre de Rebecca Hall é subutilizada. Guy Pearce tem mais tempo, mas não é memorável.

Importando-se razoavelmente com crianças, pequenas aventuras e publicidade descarada, Homem de Ferro 3 é aceitável, embora tente compensar a extensiva aventura de um homem desprotegido com a de super-herói em um curto espaço de tempo. O desequilíbrio fica evidente.

Tony Stark teve uma notável evolução, mas ainda será o playboy arrogante suscetível a erros. Que eles sejam da fase atual, pelo menos.

(Iron Man Three,   , 2013) Dirigido por Shane Black. Com: Robert Downey Jr., Guy Pearce, Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Rebecca Hall, Jon Favreau, Ben Kingsley.

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X-Men: Apocalipse

Colecionador de habilidades

Em Dias de um Futuro Esquecido, o fim de mundo só pôde ser revertido com viagem no tempo. A sequência de X-Men inclui outra situação, dentre muitas, parecida, para unicamente a equipe do reboot – liderada por um professor Xavier cadeirante, mas que ainda não perdeu o cabelo – resolver, em seu tempo.

O vilão chama-se En Sabah Nur – ninguém se refere a ele como Apocalipse, nome mais fácil de lembrar – considerado o primeiro mutante do mundo, que passou gerações trocando de corpo e roubando poderes, o que justifica sua extrema força. No Egito Antigo, como deus, uma conspiração o enterrou embaixo de uma pirâmide, ficando de molho por séculos.

A trama principal se passa nos anos 1980. Professor Xavier (McAvoy) toca sua escola para jovens superdotados com sucesso. Mística (Lawrence) faz as vezes de espiã solitária, enquanto Magneto (Fassbender), que por algum motivo não foi preso, vive como civil na Europa Central, até ter o disfarce revelado e perder a família que formou. Dramas repetidos a esses dois: Raven está até mais dócil, enquanto Eric reencontra a raiva como combustível de existência. Paralelamente, Apocalipse retorna à vida e está recrutando novos guardas, a fim de iniciar uma destruição mundial, onde os humanos se curvarão aos mutantes.

X-Men: Apocalipse cria definições que sustentam parte da história, mas que são difíceis de aceitar, como Mística se tornando heroína dos mutantes clandestinos, por conta da dispensável cena em que fugia de Magneto no filme anterior, e era flagrada pelas câmeras. No lugar, Fera poderia ser a referência, já que estava presente naquela situação.

Um filme de origem ainda é incluso, tratando de personagens clássicos, como Ciclope (Sheridan) e Wolverine (Jackman), de quem não largam o osso. A sequência envolvendo o homem das garras é toda dedicada ao fã de quadrinhos, sendo totalmente acessória a esta aventura. A captura dos alunos de Xavier pelo Coronel Stryker, além de atrasá-los por nada, faz o espectador de trouxa: as possibilidades em limpar os erros da trilogia original, a exemplo de Mística se transformar no militar para salvar Logan da prisão e tormento, anteriormente, são jogadas no lixo.

Apocalipse é um vilão fraco. A figura adorada do passado se torna um tipo solitário, sedento unicamente por poder. Seus novos guardas são superficiais, incluindo Tempestade e Psylocke. Magneto também se alia ao ancião, protagoniza uma sequência genérica de destruição de cartões postais (algo que pode ser visto em qualquer filme-catástrofe) e volta atrás muito facilmente, convenientemente para o duelo decisivo.

O trabalho coletivo é esboçado no clímax, embora o grupo seja muito inexperiente para salvar o mundo. Xavier, então, conta com uma carta na manga, que é revelada muito cedo na franquia, mas justifica o tema do próximo longa. Provavelmente este terá um outro salto no tempo, e aí está o problema: a ambição por aventuras grandiosas, impossibilitando o aproveitamento das transições, quando os personagens estão se desenvolvendo.

X-Men: Apocalipse apresenta um antagonista novo e dá tempo no preconceito da humanidade aos mutantes, mas continua a ser redundante. Se seis longas e dezesseis anos não foram suficientes para aprender com os erros, o problema é grave.

(X-Men: Apocalypse, , 2016) Dirigido por Bryan Singer. Com: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Olivia Munn.

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