O Encouraçado Potemkin

Irmandade unida

A qualidade da comida em uma embarcação soviética se torna a gota d’água para uma rebelião. Em O Encouraçado Potemkin, é preciso entender que a situação estava assim não só em alto mar, mas em Odessa, o que possibilitou o posso desta apoiar os marinheiros.

A história se passa em 1905 e é uma semente ao que se passaria doze anos depois, na Revolução Russa, com o proletariado derrubando a elite czarista. Existem muitos momentos de pesares, mas há um grande otimismo no geral, espelhando o movimento que mudaria o país.

A carne putrefata e cheia de larvas servidas aos trabalhadores representa a matéria dos próprios, sendo exploradas diariamente pelos superiores, distribuindo ordens com a arrogância de que não são contrariados.

Existem marinheiros de branco, que realizam trabalhos braçais, e os de preto, que manuseiam armas. O segredo está em um reconhecer o outro como igual, ação que é repetida em outras esferas, posteriormente. As carabinas são instrumento de coerção, seguidas do medo. Esse sentimento é visto menos do que o esperado, pois o proletariado está motivado. O que não quer dizer que ele não apareça, e de forma brutal, no revés do povo de Odessa.

Durante os preparativos para a execução de uns poucos marinheiros pelos patrões, um padre surge para guiar as almas ao além. Quando o contra-ataque toma forma, hipocrisia dele é revelada, condenando o ato e depois caindo de uma escada, fingindo desmaio para não ser abatido junto de outros engomadinhos.

No continente, a primeira escadaria mostrada por Eisenstein é espremida por faixas pretas laterais, destacando sua estreiteza. Há uma função, diferente das filmagens com smartphone, quase cem anos depois, quando um indivíduo enquadra verticalmente a imagem, sem pensar. Um pouco antes, um defunto é velado, e é possível perceber o corpo do ator se mexendo para respirar. A violência no navio, com exceção da contra Vakulinchuk (Antonov), poderia ser mais memorável, mas prefere-se destacar o choque entre grandes grupos à distância.

A movimentação homogênea de multidões a um mesmo sentido é poética. Durante a indignação inaugural, o inimigo é chamado de açougueiro, e um agitador – gritando “morte aos judeus”, a antevisão do sentimento antissemita que ainda iria crescer muito na Europa – é rapidamente sufocado em um espaço onde emana solidariedade.

O filme é mestre em criar sequenciais momentos de tensão, dos ataques na escadaria ao deslocamento do Potemkin em direção a possíveis inimigos. Os cortes cada vez mais rápidos e a trilha sonora, que ora destaca sons curtos, como tiros e batidas, ora não, criam atmosferas angustiantes.

Na sequência mais famosa, a escadaria parece curta, vista de cima pelos atiradores, e longa na descida desesperada das futuras vítimas. Sublinha-se especialmente o destino das crianças (o futuro da nação) e das mães (a pátria acolhedora). A câmera, às vezes, acompanha a descida e, em uma oportunidade, enquadra a visão de um dos personagens. Talvez os closes mais fechados sejam os mais fortes, retratando a dor das pessoas que perderam alguém e estão prestes a ter as próprias vidas encerradas.

Ninguém gosta de ser subjugado, mas mexer com a comida tira qualquer um do sério. Em uma época que direitos quase inexistiam e deveres lotavam o convés, algum equilíbrio foi buscado.

(Bronenosets Potemkin, , 1925) Dirigido por Sergei M. Eisenstein. Com: Aleksandr Antonov, Vladimir Barskiy, Grigoriy Aleksandrov.

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Na Praia

Grandes distâncias

Um jovem casal inglês está em lua de mel. O cenário é um hotel, à beira de uma praia de pedregulhos pouco convidativa. Durante o jantar, dentro do quarto, ficam nervosos, como se o outro fosse um estranho. Os recorrentes e não lineares flashbacks contradizem o momento: o primeiro olhar que trocaram na vida foi como o de um amor à primeira vista. Na Praia até fornece resposta ao clima ruim, mas adiciona ainda muitos questionamentos.

Apesar do formato não tão convencional, as inserções de memórias obedecem uma organização que tenta, mas não consegue disfarçar a falta de criatividade no presente. Durante o jantar, o espectador ainda está conhecendo os personagens, mas na ida à cama, a artificialidade grita sempre que retorna ao mesmo esquema da dupla não conseguindo iniciar uma preliminar, se é que dá para chamar assim.

O material é amplo para a ilustração da história, mas há questões fora do relacionamento em si que acabam sobrando, como o drama da mãe do rapaz, que possui transtorno mental, e o peso dela sobre a família. Na cultura adquirida, a atenção paira sobre o futuro marido, que se formou em História e sabe de informações inúteis, com a identificação de aves pelo assobio que emitem. Essa é bem compartilhada com a companheira Florence (Ronan), mas a premissa não é a mesma no caminho inverso: ela participa de um grupo de música clássica, mas o mínimo de entusiasmo por parte de Edward (Howle) serve apenas para gerar uma promessa tola que justificará a apelativa sequência final.

O diretor Dominic Cooke aproveita os espaços e objetos do hotel para criar sensações de falsidade (a água no vinho) e de falsa privacidade (o saguão é cheio de gente). Na praia propriamente dita, cria representações em posição e espaço de corpos, mas não progride o drama. Prefere armar um pequeno barraco, seguido de não reações e não dizeres.

O dúbio é utilizado com acerto em questões que desviam à justificativa oficial dos personagens. Envolve uma confissão ao padre e um instantâneo flashback durante um momento de ápice. São questões mais sugeridas que destrinchadas. No primeiro, um elemento já foi apresentado para tal. No segundo, é preciso um pingo de astúcia.

Baseado em um livro de Ewan McEwan, Na Praia é a segunda adaptação do escritor inglês estrelado por Saiorse Ronan (o outro foi Desejo e Reparação). A atriz domina melhor a cena com o pouco que dispõe – a família é periférica e a atividade musical é razoável – enquanto que com o colega Billy Howle acontece o contrário. Sua falta de criar encanto causa zero pesar quando Edward revela uma faceta cruel e pouca solidariedade no relato que este faz a amigos, não se identificando como protagonista.

Os últimos quinze minutos apelam a uma nostalgia barata, estimulando lágrimas a todo custo. É uma adição que desfortalece Na Praia, relativamente eficiente no retrato de seu tempo – a trama principal se passa nos anos 1960 – mas que perde o rumo quando se afasta de seu litoral seguro.

(On Chesil Beach, , 2017) Dirigido por Dominic Cooke. Com: Billy Howle, Saoirse Ronan, Bebe Cave, Emily Watson, Anne-Marie Duff.

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A Negação do Brasil

Televisão para poucos

A sociedade está em constante mudança e, considerando que as obras audiovisuais a retratam, é normal elas fiquem datadas com o passar do tempo. Tratando de tecnologia, isso é inevitável. Se for problema social, é sinal de que foi superado. Não é o caso de A Negação do Brasil, lançado na virada do século XXI, mostrando o recorte de um Brasil que, mais de cem anos depois da Lei Áurea, ainda dificulta a inclusão do negro na coletividade.

O foco são as telenovelas. Joel Zito Araújo começa com obras de meados dos anos 1950 e vai até o final da década de 1990, seguindo mais ou menos a linha cronológica. Situa a posição periférica do negro, que quase sempre recebe papéis de empregados, de domésticos a segurança, e evolui na reivindicação de protagonistas, raros.

Dezoito anos depois, com o estabelecimento da internet, as vozes se ampliaram, mas aos dois lados, resultando também em chacota a quem protesta contra o racismo. No período selecionado pelo documentário, impressiona as manifestações por igualdade de oportunidades em uma época dominada pelo autoritarismo (ditadura) e baixo engajamento.

Alguns entrevistados do meio, como Tony Tornado, se contentam com o pouco espaço recebido, enquanto profissionais brancos criativos de trás das câmeras não têm a menor vergonha em dizer que não encontraram atores negros, mesmo que os respectivos personagens precisassem se aproximar da afrodescendência, como as protagonistas de A Escrava Isaura e de Gabriela.

A transmissão de trechos de telenovelas é quase dominante; a solução para driblar a baixa resolução das imagens é boa, diminuindo as dimensões e usando uma televisão antiga como moldura.

As tentativas de romper o óbvio são insuficientes. A reunião de atrizes, como Cléa Simões e Léa Garcia, em uma sala, vendo televisão, é quase o react de YouTube. As entrevistas individuais, feitas sem essa intervenção, são mais proveitosas.

Há duas narrações em off, de um narrador que se inclui na questão, e outro que analisa, sem aproximação, confundindo o espectador. O primeiro, pelo menos, poderia receber uma face e uma história maior, mesmo que brevemente.

A questão de como o branco no showbizz trata o assunto é outro ponto de interesse, pois se trata da igualdade de oportunidades para exibir as particularidades dessa população, e não esta ser como a dominante, tendo como exemplo a família negra de classe média de A Próxima Vítima, que ignora o racismo contra si próprios. O trecho de outra obra, então, da empregada que vai ao programa de calouros, e todos, inclusive dos jurados, elogiam mais o patrão, que está assistindo, do que a participante, é de um escárnio singular.

Há muitos pontos para se indignar, do black face de Sérgio Cardoso em A Cabana do Pai Tomás, registrada como último uso em uma telenovela (mas que ainda é reproduzido em humorísticos), à retração da abolição da escravatura como um presente do benevolente senhor de engenho (em tempos que o revisionismo histórico desonesto nem estava tão na moda).

O mundo gira, o tempo passa. Especialmente o Brasil, que tem o dom de repetir os mesmos erros históricos, não é de surpreender que A Negação… se mantenha tão atual. Uma continuação atualizaria novos casos, mas a natureza de muitos permaneceria quase intacta.

O país, tão miscigenado, rejeita tanto sua população quanto seu passado. Enquanto não resolver um, não resolve o outro, e vice-versa. O passado não é aquele de cinquenta ou dezoito anos atrás, mas do segundo que acabou de passar.

(A Negação do Brasil, , 2000) Dirigido por Joel Zito Araújo.

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Deadpool 2

Solidão temporária

Em 2016, Wade Wilson (Reynolds) falava que não era um herói. Estava impactado com o ganho de poderes e a transformação em Deadpool, apesar de ter sido um matador de aluguel tagarela a vida inteira. Dois anos depois, ele começa o segundo filme já na busca de caras maus pelo mundo todo, o que gera uma triste consequência. Isso não o impede de perseverar, entrando até nos X-Men, mesmo que por um curto período. Na sequência, por vias tortas e involuntárias, ele se torna líder e mentor.

Até a aparição de Cable (Brolin), Deadpool 2 é disperso. Esse estilo ajuda a causar certa surpresa no alvo da missão principal, que acaba tendo tempo menor, compreensivelmente. Apesar da desorientação, há as cenas de ação e piadas de praxe.

O herói aparece mais sem máscara desta vez, o que sugere que a história tenha mais a ver com Wade. O revés inaugural é impactante, há momentânea emoção, desanimação e busca por respostas em uma narrativa espiritual, mas o personagem está atarefado demais para se preocupar melhor com essas questões. O Deus Ex-Machina nos últimos minutos poderia reverter todos os acontecimentos, o que seria mais lógico ao seu executor, que passou por drama parecido e gostaria de retribuir, mas a intenção de uma sequência cômica, nas mãos de outra pessoa, nos créditos finais, falou mais alto. Se isso vai ser efetivado, tanto faz: é engraçado, embora lide com assuntos recorrentes do longa original.

Os velhos coadjuvantes continuam iguais ou recebem menor atenção. Destaque negativo ao taxista indiano que quer entrar para o novo grupo de heróis, chamado de X-Force, mas é muito atrapalhado e não possui poderes. Entre as novidades, Cable é decepcionante: ele recebe uma premissa e a segue linearmente por um bom tempo. Falta personalidade e história a uma figura que divide com o personagem-título o cartaz de divulgação. Por outro lado, Domino (Beetz) carrega a cena de perseguição automobilística, não para testemunhar os malabarismos produzidos por um frágil trabalho de computação gráfica, mas para saber como seu poder singular reage a cada contratempo.

A sequência final é interminável, resultado dos vários grupos de personagens criados. Um vilão clássico dos X-Men é escalado, mas o temor a ele se dissipa depois que enfrenta alguém a sua altura. O trio principal é ocupado por missões paralelas descartáveis para dar tempo à principal se avolumar. A repetição da fala “30 segundos” de Cable e o comportamento derradeiro do herói vermelho tornam o conjunto ainda mais insuportável, mesmo que o segundo se justifique por ser uma piada.

Deadpool 2 não supera o original, mas também não fica muito atrás. Com exceção da trajetória do X-Force, poderia se levar um pouco mais a sério, já que no lado galhofeiro recicla assuntos já vistos anteriormente. Sem o fator surpresa, são os adversários que se adiantam com um quarto do pânico e a uma faca sem ponta, e pegam o herói de calças – pernas? – curtas.

(Deadpool 2, , 2018) Dirigido por David Leitch. Com: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Karan Soni, Brianna Hildebrand, Eddie Marsan.

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Anon

Testemunhas oculares

A privacidade na internet é um tema bastante discutido no mundo real de 2018, mas no fictício de Anon, ela foi superada: todos os cidadãos possuem um dispositivo na região ocular, conectado a um sistema comum, que interage passivamente com o ambiente. Ninguém está mais invisível, pois as informações básicas de cada indivíduo aparecem no ar para os outros verem, e impune, pois as imagens individuais em câmera subjetiva são gravadas – caso a polícia precise, elas são obtidas sem cerimônia.

Dos espaços físicos, foram varridos papeis e computadores. O indivíduo faz consultas parado em algum lugar e olhando para o nada. As interações verbais se tornaram econômicas, e refletem nos cenários, frios e impessoais. Até aparecer um hacker que manipula os dispositivos, cometendo assassinatos e não tendo o rosto registrado, o modelo de vida parece perfeito, sem reclamações.

Sob o ponto de vista da lei, o filme é sustentado pelo detetive Sal Frieland (Owen). Antes do caso policial vir à tona, ele cruza com uma mulher (Seyfried) na rua, que aparece sem identificação. Passa batido, mas as investigações apontam a uma mulher, fazendo a desconfiança cair sobre a dita cuja. Pouco tempo depois, os registros visuais sobre essa pessoa são apagados misteriosamente, inclusive de pessoas aleatórias que estavam naquele encontro.

A premissa é interessante, mas se dissolve em facilitações narrativas. Friedland acessa uma espécie de Deep Web e já encontra a suspeita, marcando um horário para um serviço ilegal que ela presta. Para isso, assume um disfarce que há toda uma preparação, mas que ainda assim poderia ser desmascarado por um fora da lei experiente e atento.

O desinteresse emocional também se vira contra o filme, em cenas que exigem um sentimento maior. O resultado é a passividade do espectador em relação à morte de um coadjuvante e um prejuízo considerável na única coisa que importa a Sal. As atuações, limitadas a essa atmosfera, também saem perdendo.

Quando o detetive avança demais e o hacker realmente se incomoda com ele, os danos envolvendo o que é realidade ou não pelo dispositivo geram os melhores momentos. No entanto, o arco de quando a própria corporação se torna um obstáculo e Sal precisa agir por conta própria é derivativo, com direito à cena de entrega de arma a um superior, colocando-a sobre a mesa, reforçando a suspensão levada, injustamente, aliás.

A relação de Sal com a garota anônima é esquisita. Ela se abre demais, revelando que há tempos se mantém anônima. A relação sexual e talvez afetiva com o detetive, conveniente para a narrativa, expõe a prestadora de serviços desnecessariamente. Para alguém que sempre evitou os outros, o compromisso assumido é digno de amador, e nunca se justifica por si só.

Anon se encerra com um plot twist anunciado em sutis reações ao longo da história, mas é fraco por apresentar novos elementos e motivações rapidamente, de última hora. Não há consequências graves a tudo o que foi visto, dando a impressão de se ter visto um episódio comum de série policial.

Na crítica sobre o alcance da tecnologia e sua dominação ao ser humano, longas melhores já foram produzidos. De positivo, fica apenas a tentativa da realização do neo-noir, no jogo de sombras, seja as projetadas no cenário (vide a investigação da morte de suas amantes), seja as metafóricas, que fornecem uma realidade fabricada.

(Anon, , 2018) Dirigido por Andrew Niccol. Com: Clive Owen, Amanda Seyfried, Colm Feore.

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